MÚSICA: RESISTÊNCIA E EXPRESSÃO

A playlist como um ato político.

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Vivemos uma das eleições mais conturbadas da nossa recente e frágil democracia.

A grande maioria das pessoas que amam a música, as artes e principalmente as liberdades individuais, estão aflitas.

Em um mundo que parecia caminhar para uma nova consciência política e de valores humanos, fundamentada no bom senso e na sensibilidade, poucos esperavam ter que conviver novamente com candidatos que flertam com a ditadura, que reverenciam torturadores ou participantes do golpe militar que o Brasil sofreu em 1964.

Frente a tudo isso, é impossível não traçar paralelos com o passado do nosso país.

A ditadura da década de 60 foi severa, principalmente para aqueles que se posicionavam contra o governo militar.


Nesse contexto de repressão de liberdades individuais, a classe artística da época talvez tenha sido a que mais se posicionou, garantindo que a música tivesse um papel muito importante na resistência.


Mesmo com a censura buscando cortar tudo aquilo que não lhe agradava, músicas eram compostas com mensagens de protesto, desejos de mudança ou gritos de esperança — muitas vezes escritas nas entrelinhas.

Um exemplo é “Cálice” de Chico Buarque e Gil, que traz referências ao cálice presente nos rituais católicos e a uma passagem bíblica (Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue), mas que é na verdade uma metáfora para o verbo “calar”.

“Apesar de Você”, também de Chico, “O Bêbado e o Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, e “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, de Geraldo Vandré, são alguns dos maiores símbolos das músicas de protesto produzidas por aqui.

Num Brasil em que nada podia ser dito — principalmente a verdade -, nasceram também movimentos, como a Tropicália.

Na impossibilidade de falar abertamente contra a Ditadura em suas canções, os artistas usavam como principal característica o deboche e a ironia por meio da atitude na vestimenta e nos arranjos cheios de experimentações exóticas, uma afronta ao conservadorismo da época.

A música foi importante demais naqueles tempos difíceis, e segue sendo atualmente, nesses tempos difíceis.


A diferença é que hoje, na era do streaming e do conteúdo gerado pelos usuários, não são só os artistas que conseguem se expressar através da música: o público também.


É possível notar movimentos na criação e compartilhamento de playlists dentro dos serviços de streaming que revelam um aumento considerável no número de playlists relacionadas com a realidade nada agradável que enfrentamos.

Há 2 semanas da eleição, o Spotify já somava, pelo menos, 800 listas de músicas contendo as palavras/expressões protesto, ditadura, elenão e fascismo no título, o que já é um número enorme e bem fora do comum. Hoje, há poucos dias do domingo eleitoral, os números já cresceram e quase batem as 900.

Uma das interpretações é a de que as pessoas estão fazendo a mesma ligação entre o discurso autoritário em voga nessas eleições e a repressão que vivemos nos anos 60. Isso, fica evidente quando analisamos as 10 músicas que mais se repetem nas playlists de protesto.

Grande parte delas são clássicos daquele momento do Brasil.

1) Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores;
2) Cálice;
3) Apesar de Você;
4) Roda-Viva;
5) O Bêbado e a Equilibrista;
6) Alegria, Alegria;
7) Jorge Maravilha;
8) Que As Crianças Cantem Livres;
9) Como Nossos Pais;
10) É Proibido Proibir.

Mais do que isso, podemos entender que as pessoas estão se utilizando da música para expressar seu posicionamento, suas opiniões e principalmente as suas emoções — tão afloradas nos últimos meses.

Numa eleição em que as pessoas estão discutindo com amigos e familiares e onde a própria saúde mental está abalada, ter a música como um refúgio e porta-voz possível é algo de extrema importância.

Quando nos faltam palavras, falamos com música.


Os serviços de streaming não só facilitam o descobrimento de artistas que nos representam, nos acolhem e nos acalmam, como também nos ajudam a criar conexões com outras pessoas que compartilham dos mesmos sentimentos que nós.


Quem nunca ouviu artistas falarem que música pode ser terapia em momentos complicados? Pois bem, agora essa “terapia da criação” está também ao alcance dos usuários mais comuns.

A criação de playlists de protesto se apresentam também como um grande movimento político.

Quanto da nossa personalidade não é formada pelos artistas que amamos na infância/adolescência? Música é e sempre foi uma forma de se expressar , uma ferramenta dos artistas para espalhar mensagens que acreditam que o mundo precisa ouvir. E por que ela funciona? Porque desvia dos argumentos racionais e se utiliza do campo emocional para tocar — e de repente até mudar — o ponto de vista de quem a escuta.

Há alguns anos, políticos vêm aderindo a diferentes ferramentas de marketing para se aproximar do público jovem. Nos EUA, Hillary Clinton e Obama foram os primeiros a entrarem no Spotify com playlists que contam um pouco sobre os ideais e a história de cada um.

Obama e Kendrick Lamar: o rapper foi figura confirmada nas playlists da Casa Branca.

O fato é que a música e política sempre estiveram muito próximos, seja em forma de protesto, de hino ou até de jingle político. Música é mensagem. Não importa se ela fala sobre beber todas, encontrar alguém, perder algo ou conquistar alguma coisa. Ela sempre foi a maneira mais forte de conectar pessoas e criar um senso coletivo de pertencimento.


Nessa campanha a favor da liberdade, contra o autoritarismo e a intolerância, as playlists estão exercendo um importante papel de influência e conexão — e quanto maior a popularidade do usuário ou da playlist, maior o poder de influência.


É como se vários programas de rádio, ao mesmo tempo, se dedicassem a tocar apenas músicas que exaltam os valores da democracia e nos lembram o quão ruim é viver numa ditadura. Músicas essas que foram sim, em grande número, criadas na década de 60, mas não exclusivamente.

Existem muitos artistas atuais que se posicionam há anos contra esse movimento retrógrado que insiste em existir. E onde ele existe, existe a música para combatê-lo.

Nós criamos a nossa própria playlist de resistência, misturando artistas brasileiros — do passado e do presente — que se posicionam politicamente, seja através das letras, da atitude ou do ativismo dentro e fora dos palcos.

A tecnologia muda, evolui e nos permite novas formas de criar e compartilhar a nossa insatisfação, a nossa luta. Enquanto isso, a música segue canalizando todos esses sentimentos e nos permitindo expressar o que dificilmente as palavras conseguiriam, assim como já fazia há 50 anos.

Não estamos sozinhos. Seguimos.


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