Sobre o Festival Bananada e as histórias de quem chegou agora.

por Nathalia Pádua — festival insider & pesquisadora musical da massa

É difícil de explicar, mais de entender. E eu nem sei se é bem assim. E é difícil de explicar, mais de dizer. Mas nem sei se é bem assim.

Seria difícil abrir esse texto sem citar Boogarins. Eles são os principais responsáveis pela minha ligação com Goiânia, antes mesmo de ter pisado os pés nessa cidade atípica. Foi através deles que descobri Carne Doce, Luziluzia, Bruna Mendez e tantas outras bandas incríveis que me instigaram a querer vivenciar esse lugar mais de pertinho. Além disso, esse trecho do Manual, álbum deles de 2015, traduz bem o que passou na minha cabeça quando decidi me aventurar em um festival de 7 dias, há dois aviões de distância da minha casa (ou 36 horas de ônibus).

Eu tô falando sobre o poder que a música tem de fazer a gente duvidar das nossas certezas, de viajar pra outros lugares com apenas um play, de emocionar, de nos deixar sem palavras, e “Cuerdo” fala, sobretudo, desse sentimento que é tão difícil de explicar.
Bem, dessa vez, eu vou tentar ao máximo tentar transformar esse sentimento, essa experiência, em palavras.
chegando agora e querendo sentar na janelinha.

Primeiro, é importante falar sobre Goiânia, a cidade que hospeda o Festival Bananada desde 1999. Muita gente deve estar se perguntando: pera, Goiás é a terra dos sertanejos, então por que um dos principais festivais brasileiros de música independente acontece por aí? É, realmente, Goiânia é a terra do sertanejo. Entre um Uber e outro, isso ficou claro.

Poucos motoristas sabiam que o Bananada estava acontecendo e os que sabiam, não tinham noção do line up. O festival é muito divulgado para fora e nas redes sociais. Nos outdoors da cidade e nas propagandas de televisão e das rádios, os shows sertanejos são o foco. O Villa Mix, por exemplo, é o maior festival sertanejo do Brasil. Nasceu em Goiânia, já passou por mais de 20 cidades brasileiras e teve seu palco eleito o maior do mundo. Ou seja, a infraestrutura não é pra amadores.

Em compensação, o Bananada não investe tanto no tamanho dos espaços, mas na diversidade deles. De segunda a quinta-feira, os shows se dividem entre 10 lugares que vão de centros culturais e estúdios até bares. É só a partir da sexta-feira que o festival passa a ser concentrado no Centro Cultural Oscar Niemeyer, onde serão montados cinco palcos.

Porém, se engana quem pensa que antes do final de semana não é necessário fazer escolhas. Como em qualquer outro festival, no Bananada a gente também tem que passar pela árdua tarefa de priorizar bandas.

Logo na segunda-feira tivemos que sacrificar a jam das bandas no Cafofo Estúdio pra ver a Bruna Mendez no SESC Centro. E não me arrependo dessa escolha nem um pouquinho. O show em si estava incrível, mas o que mais chamou a atenção foi o espaço. O teatro é construído em formato de Arena, do tipo que todo mundo fica ao redor do palco, bem intimista. Além disso, a acústica do lugar é impecável, fazendo a gente mergulhar nas músicas.

Logo depois do show da Bruna Mendez, saímos correndo pro Rock Pub pra ver Niela Moura e Sarah Abdala. Na terça, tivemos que fazer o uni-du-ni-tê de novo, e fomos parar na noite da PWR Records, no Shiva Alt Bar. Pra quem não conhece, a PWR é um selo incrível de Recife, que lança artistas mulheres, mas, mais do que isso, dá suporte a todo o ciclo de lançamento e ao fortalecimento da cena feminina.

E não teria como falar do Bananada até aqui sem citar esse fato: de segunda até agora rolaram muitos shows com bandas de gurias. E isso não é uma coincidência: cada vez mais as minas estão se empoderando e mostrando que palco é lugar de mulher e ver que o festival está atento a isso é um sinal bom, de mudança.

Tão inspirador quanto o número de shows liderados por mulheres, é ver que o Bananada é um festival true independente. Durante a semana, por exemplo, rolam vários showcases de selos do Brasil inteiro. É como se fosse um grande encontro anual de troca entre bandas indie. E quando digo independentes, não me refiro à um estilo musical, mas a uma galera que tem que vender disco e camiseta depois do show pra poder voltar pra casa. Ao mesmo tempo que é duro ver tanta gente com talento tendo que ralar pra conseguir estar aqui, também é legal ver que não é mais necessário ter uma gravadora nas costas pra se sustentar, e que o público está cada vez mais engajado em fomentar essa cena.

Um ponto alto desse começo de semana e que traduz esse encontro da cena independente no festival foi o show que reuniu a Ventre, do Rio de Janeiro, e a E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, de São Paulo. As bandas tocaram juntas no SESC Centro e essa foi uma das experiências mais absurdas que já vivi — e olha que já fui em muitos shows nesses 22 aninhos de vida.

Ver duas bandas experimentais tocando simultaneamente, em um teatro com uma acústica incrível, com uma galera focada no som, sem celular, sem conversa, foi revigorante. Por mais clichê que possa parecer, é aquele ditado: é nesses momentos que a vida vale a pena.

Durante o show, o Caetano cantou diversas vezes na minha cabeça “i’m alive — e vivo muito”; porque é isso aí, a música tem esse poder de nos fazer se sentir vivos e sem palavras, como falei lá no início desse texto. Foi exatamente isso que aconteceu ontem.

No final do show, a galera estava tão em êxtase que ficou AQUELE silêncio, sabe? Olhei pro lado, na saída, e minha amiga tava sentada numa poltrona olhado pro nada. Me percebi na mesma situação, perplexa, sem ter o que falar. Espero que isso aconteça mais no próximos dias, foi pra isso que vim aqui, não é mesmo? :)


PS: esse relato continua amanhã com a experiência dessa quinta-feira, é só ficar ligado na atualização desse post!