A filosofia do bunda-sujismo

Ano 2019. O governo brasileiro, representando os anseios sociais, amparado no artigo 5º da Constituição Federal Brasileira de 1988 que versa sobre os direitos essenciais e fundamentais decreta o seguinte:

Art. 1º É direito fundamental do trabalho poder limpar o bumbum.

A composição da complexa lei foi assunto de acalorados debates sociais, o povo foi às urnas e, por defender o trabalhador, o Sindicato dos Trabalhadores das Fábricas de Papel Higiênico venceu com a melhor proposta no referendo.

Os sindicatos começaram a pressionar o governo, quando um sindicato pressiona o governo, se trata de ordem, de vantagem, de dinheiro e de reeleição, assim, o governo criou a Secretaria do Bumbum Limpo, o Secretário zangou-se e exigiu status de ministro, quatro meses depois, a secretaria foi promovida para ministério, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Fábricas de Papel Higiênico assumiu o posto máximo, ganhou 9 andares na esplanada e digladiava o poder com o Ministério do Trabalho e Previdência Social.

O Ministro do Bumbum Limpo foi à imprensa ventilar que todo cidadão tinha direito a ter o bumbum limpo, para garantir esse direito adquirido, foi acrescentado um novo artigo a lei:

Art. 2º O estado deve garantir que todo trabalhador tenha o bumbum limpo.

Diversas autarquias do Ministério do Bumbum Limpo foram criadas, tudo visando o bem estar do trabalhador, agências do Bumbum Limpo foram inauguradas em todas as cidades brasileiras e o programa social BUNDA-LIMPA foi anunciado pelo governo, atingia 100% dos necessitados, era um sucesso. O tempo para atendimento era imenso, algumas empresas foram contratadas por licitação para gerenciar a fila e verificar se o cidadão estava com o bumbum limpo. Para ter o serviço de graça, todo trabalhador foi obrigado a contribuir com um imposto.

Ampliando os direitos dos trabalhadores, uma nova lei foi criada:

Art. 3º É dever do estado garantir que todo trabalhador tenha o bumbum limpo.

Banheiros públicos foram instalados em diversos pontos da cidade, cada qual com 607 funcionários do estado limpando a bunda dos trabalhadores, para receber atendimento, bastava acordar cedo, agendar horário, preencher a ficha, os requisitos e apresentar comprovante de estar de bumbum sujo, tal comprovante era obtido através de uma perícia no SUBL — Sistema Único do Bumbum Limpo. A manutenção dos banheiros gratuitos e salários dos funcionários são custeadas com uma nova contribuição obrigatória aos trabalhadores.

Visando a contínua produção de papéis higiênicos um nova lei foi necessária:

Art. 4º Empresas de papel higiênico devem ser estatizadas.

Foram estatizadas as 3 empresas do país, criando uma massa de 250 profissionais desempregados e 9000 novos cargos públicos para substituir os 250 ex-trabalhadores. Na manhã seguinte a notícia no jornal: “Governo cria 9000 empregos em um só dia

Ano 2021. Uma mensagem na famosa rede social criou alvoroço e irritou a classe jurídica no Twitter, o governo reagiu criando uma página no Facebook, chamou-a de #REDE BUNDA LIMPA. A mensagem era: “Geeenteee, bando de vagabundos esses que sequer conseguem limpar a bunda, o governo deveria sair da frente e deixar que cada cidadão se vire

Na segunda-feira, a página #REDE BUNDA LIMPA anunciou que o perfil foi descoberto, o responsável foi colocado em frente a câmera de TV chorando e pedindo desculpa, sua casa foi apedrejada e queimada, a família precisou fugir da cidade.

O Ministério do Bumbum Limpo foi ao horário nobre da TV com o seguinte comunicado:

“Tantos anos foram necessários para que pudéssemos defender os direitos dos trabalhadores e alguns burgueses-brancos-cisgênero têm a petulância de esnobar desses direitos adquiridos. Sem o governo, quem garantiria bumbuns limpos? Sem o governo quem fabricaria papéis higiênicos de uso duplo? Se o governo abandonar os trabalhadores, o que seria feito dos 72 mil servidores públicos que tanto atuam em prol de bumbuns limpos?

Amigos trabalhadores, a lei trabalhista é uma conquista, não deixem que queiram lhe forçar a se limpar sozinho, essa função social é do estado.”

No dia seguinte, emocionados, todos os trabalhadores foram comunicados da nova lei:

Art. 5º Todo empregador deve garantir a limpeza do bumbum do funcionário.

Parágrafo único. O papel não poderá ser de uso duplo.

Sindicatos passaram a cobrar que todo empregador passasse a limpar a bunda do empregado, pois com o bumbum sujo, a atividade seria considerada insalubre. Caso contrário, greves seriam realizadas.

Ano 2022. Ninguém cogita mexer em direitos conquistados, são sagrados, são conquistas, não devem e nem podem ser discutidos. Em lugares aonde o estado se mantém ausente, vários trabalhadores passam anos de bumbum sujo, mesmo em grandes centros urbanos é possível ver o populacho cercado por moscas, hoje ninguém mais limpa a bunda, todos ficam à espera do estado, manifestações gigantescas são organizadas no Brasil, a maior parte dos cartazes pede por mais qualidade estatal na limpeza de bumbuns.

O sindicato dos trabalhadores registra que 96% da ausência no trabalho é devido ao prurido anal, vários empresários malvadões estão sendo punidos por não limpar a bunda de seus empregados. Viva la revolución!

Alguém comentou no rádio que a limpeza da bunda deveria ser efetuada pelo individuo — foi humilhado pelo jornalista: — A sociedade não está pronta para isso, essa ideia é de gente mesquinha, arrogante, burguesa, branca e cisgênera. Foi instaurada uma comissão para avaliar os bumbuns sujos — a solução proposta — por não estarmos prontos para limparmos nossa bunda, o governo decreta o seguinte:

Art. 6º Será cobrado um imposto para aumentar a presença do estado na limpeza gratuita da bunda do trabalhador.

Ninguém mais sabe limpar a própria bunda, e todos acham que não estamos prontos para resolver essa delicada situação. Empresários passaram a fornecer o serviço Limpa Bumbum Express.

Art. 7º O Estado será o único que oferecerá o serviço essencial de limpeza de bunda.

Para esse benefício gratuito, todo trabalhador passou a ter descontado do salário, 11% de imposto, o governo chamou isso de “contribuição”.

Na terça-feira vários foram presos por terem sido pegos limpando seus próprios bumbuns, a vizinhança envergonhada gritava: bandido! bandido!! Enquanto o transgressor era encaminhado para o fundo do camburão.

Nas favelas, grandes disputas de traficantes que agora fornecem papel higiênico ilícito! Para combater o tráfico, uma força militar foi constituída, o serviço gratuito é mantido através de um imposto. O estado chama isso de contribuição para segurança e manutenção da ordem.

A força militar mostrou-se muito eficiente, prendendo todo dia 312 traficantes de papel higiênicos e alguns limpadores de bumbuns, foram criados presídios, um imposto foi criado para manter tais criminosos atrás das grades gratuitamente. Grupos de malfeitores que insistiam em vender papel higiênico passaram a se armar para defender-se do estado. O estado contra-atacou, criou um novo imposto. “-Investimento em segurança”, disse o delegado.

Ano 2023. Ninguém sabe limpar o bumbum! Quem tenta é criminoso, o cidadão correto e seguidor das regras passou a evitar lugares ondem pessoas vendem papel higiênico, foi criado até um nome pejorativo para se referir ao delinquente — Traficante.

A repórter aborda transeuntes: — O que você faria se seu filho usasse papel higiênico? — Deus me livre! Eu não criei filho pra isso!

Pah! Tiro na cabeça de um vagabundo vendedor de papel higiênico, a sociedade vai ao êxtase! — Um vagabundo a menos! Bandido bom é bandido morto.

Art. 8º Toda escola deve ensinar a filosofia histórica do bunda-sujismo.

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Jefferson Banks Miranda

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