
Obsolescência programada
Vulnerant omnes, ultima necat
“Todas [as horas] ferem, a última mata”. Inscrição comum em relógios antigos, lembrava o observador da inevitabilidade da morte que se aproximava a cada hora.
Envelhecer é difícil, não apenas em relação ao corpo, mas também à sua percepção do mundo — pior do que ser velho é se sentir velho. Sensação essa que me acometeu ao abrir um link divulgando vagas de emprego, onde de uns 105 anúncios, talvez apenas um único deles se encaixava no meu perfil, e isso apenas porque era bastante genérico. Meu pensamento imediato foi “se eu perder o emprego estou f…”. Me senti oficialmente uma relíquia do passado (?), sendo catalogado no acervo permanente do Museu da Computação.
As coisas andam rápido no terreno da Computação, com novas tecnologias aparecendo da noite para o dia e com novas conferências surgindo todos os anos, reunindo as comunidades que se formam em torno dessas tecnologias, e de repente aquela coisa que você se dedicou por anos e se tornou muito bom já não é mais tão atraente para a nova geração de desenvolvedores, e por consequência também já não tem mais muito espaço no mercado. E então, de volta à estaca zero, pra aprender tudo que essa criançada está usando nos dias de hoje.
Apesar de tudo, no entanto, ir avançando na idade também traz outras coisas, como experiência: depois de ver o mesmo problema cem vezes, você meio que já imagina a situação antes dela acontecer e já faz o código prevendo essas pequenas coisas que acabam roubando o seu tempo. Ou então, saindo do campo técnico e entrando na vida real, você aprende a lidar melhor com certas coisas, porque você já passou por isso e já sabe como tudo termina. Num passado não muito distante eu só faltava arrancar os (não muitos) cabelos quando cometia algum erro no trabalho ou na faculdade, até chegando a perder o sono vez por outra, mas hoje eu entendo que é preciso enxergar além do erro para impedir que o mesmo ocorra novamente; não dá pra voltar no tempo, mas dá pra se preparar melhor no futuro. Também veio a noção de que algumas coisas e algumas pessoas simplesmente não vão mudar, e só resta saber lidar com isso da melhor maneira possível.
Bom, na verdade, eu nem sou tão velho assim — ainda nos 30 e poucos — mas muitas vezes eu acabo dando importância demais a isso, quando eu acho que nem deveria. Acho que o melhor mesmo é continuar seguindo e fazendo o que eu acho que deveria ser feito, mantendo sempre em mente os meus ideais.
Mas já estou aprendendo JavaScript. Vai que…