ping ping ping

a torneira continuava pingando
ping ping ping
irritava até a alma
onde eu estava? pensando em Jane, aquela da música do Lou Reed.
será que ela era ruiva, morena? ela existiu? Jane era mesmo “sweet”, ou era ironia da parte de Reed dizer isso?
eu não sabia, por que jamais o conheci pessoalmente para dizer que ele tinha um senso irônico em si.
que frustração nunca tê-lo conhecido.
queria ter sido sua Femme Fatale.
ping ping ping
maldita torneira! queria ter um martelo.
“não era mais fácil concertá-la?”
é mais fácil destruir do que concertar, meu caro eu.
Onde estava? Aaah sim, Jane.
Eu estava ouvindo essa música por que estava entediada no meu quarto, por que estou de férias e por que não tinha nada para fazer.
mas por que cargas d’água não consigo fazer nada de útil?
por que
tempo tenho, quando não tenho brota atividades e desejos.
todos sumiram
queria ser a Jane.
ping ping ping
eu poderia ir até a torneira e analisar a situação, mas existe algo em mim que não me deixa ir.
não, não é premonição ou algum sentimento abstrato, isso se chama preguiça.
alguns tem vergonha de assumir esse pecado, eu o tenho como parte de mim.
“Sweet Jane! Come on baby! Sweet Jane! Oh-oh-a! Sweet Jane!”
queria que alguém tivesse escrito uma canção para mim, mas acho que não seria muito boa.
Quantas horas são? Já passa das 15hr da tarde.
tempo tempo tempo
mais relativo que meus pensamentos.
“ora seu hipócrita, pare de correr que paro de pensar”
“ora sua hipócrita, pare de pensar que paro de correr”
deste quando o tempo fala?
ping ping ping
essas gotas devem ir para algum lugar, viveram pouco, não lavaram, não molharam, só se foram.
acho que sou uma gota de uma torneira frouxa.
No que estava pensando? Preciso fazer algo.
o telefone toca, a porta bate, a música para.
preciso ir
ping ping ping
esse som se torna irrelevante no meio dos escândalos da minha cabeça.

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