Relacionamento Abusivo

Um tema pouco falado, mas com histórias que as mulheres se identificam, embora, as vezes nunca tenham percebido.


De acordo o segundo volume da Pesquisa Nacional de Saúde 2013 do IBGE, 3,1% das mulheres brasileiras com mais de 18 anos — um total de 2,5 milhões de mulheres — já foi vítima de agressão física, verbal e emocional de autoria de conhecidos, como pai, irmão, amigos, namorado, noivo ou marido.

A psicanalista Laura de Andrade explica porque este tipo de relação é considerada abusiva: “um relacionamento é considerado abusivo quando ocorre a dominação e o controle do outro, quando esse outro é usado como objeto de satisfação, como propriedade, quando não é respeitado os limites, desejos, liberdade de escolha e interesses emocionais do outro que está sendo “abusado”. É realmente um abuso, porque há uma invasão desse outro por completo. Invasão de privacidade, intimidade, controle de todas as atitudes, há uma dominação desse outro em todos os aspectos, inclusive sob o uso de constantes ameaças quando esse outro tenta sair um pouco desse padrão de dominação e de sufocamento.”

É difícil identificar este tipo de relacionamento, pois o abusador tende a culpar a vítima pelos abusos, que vão desde insultos verbais ao ciúme excessivo, continuado de violência psicológica podendo levar a violência sexual e física.

A produtora e cenógrafa, Isabela Sodré, de 26 anos conta da dificuldade que teve para reconhecer que não era a causadora e sim vítima de todos os abusos psicológicos que sofreu. Ela ainda se sente culpada por ter permanecido no relacionamento.

I.S., 22 anos e jornalista, conta que tipos de abusos sofreu por parte de seu namorado. “Ele nunca foi declaradamente um homem controlador, mas me manipulava sem que eu percebesse. Quando eu comecei a notar, eu já não tinha mais contato com amigos que não fossem “nossos”. Se eu dissesse que não queria transar, era motivo para a gente brigar e ele ficar de cara feia por vários dias. Ele me pressionava, ou então abusava de mim, quando eu estava dormindo.”

A terapeuta explica que um relacionamento abusivo causa uma devastação emocional, perda da identidade e dificuldade de reconhecer seus próprios desejos. Porque há um apagamento do sujeito desejante, ele passa a ocupar a posição de objeto do outro que tem o perfil abusador.

Universitária, 20 anos, já teve relacionamento abusivo (Foto: Danielle Crys)

N. G., 20 anos, universitária fala como ficou após o rompimento da relação: “depois do ocorrido, eu caí numa depressão profunda. Tentei me matar duas vezes (por meio de remédios), passei por crises de auto mutilação, muitas crises de ansiedade e as doses de antidepressivo e ansiolítico só foram aumentando.” A N. ainda toma remédio e faz acompanhamento em clínica psiquiátrica uma vez por mês e psicanalista uma vez por semana.

Seja qual for violência, ela pode ser denunciada em qualquer delegacia ou Central de Atendimento à Mulher(Ligue 180). E as prefeituras também oferecem centros de atendimento, que acolhem as mulheres em situação de violência.

Ao registrar o boletim de ocorrência em uma delegacia, a mulher pode entrar com uma medida protetiva sob a Lei Maria da Penha que obriga o agressor a se manter longe dela.