Entre o amor antigo e o moderno

Sempre me pego pensando no amor moderno — relacionamento aberto, poliamor, aplicativos — e o quanto eles correm ao encontro de tabus antigos, como traição, desilusões, julgamentos sociais.

Eu pessoalmente acredito que as próximas gerações estarão muito mais abertas ao amor múltiplo, sem amarras, mais leve e até mais egoísta.

Mas a minha geração, mais intermediária, sofre com a vontade de usufruir somente o lado bom de cada um deles. Queremos ter alguém nos esperando em casa, mas será que não pode aproveitar quando não estou em casa? Ah, mas não quero que a outra pessoa aproveite quando sou eu que não estou.

Não espero que a pessoa do aplicativo queira nada sério, porque encontrei ela num aplicativo, né? Que tipo de gente usa aplicativo? Mas tudo bem se eu usar, porque é só para aproveitar um pouco.

Deve ser legal ter ~convidados~ no meu relacionamento, mas só quem eu quero, quando eu quero. Se o outro quiser, vou desconfiar e achar que tem alguma coisa aí. Só pode ser.

É um momento em que questionamos os valores, mas sem abrir mão dos direitos que achamos que temos.

De fato, é cada vez mais difícil amar. Não pode prender, tem que deixar livre. Tem que se cuidar, estar sempre bonita. Tem que ser inteligente, e divertida. Não pode ter ciúme, não pode causar ciúme, “você que provocou”.

O homem tem que sustentar a casa? “Ele não precisa saber cozinhar, ele chega cansado do trabalho. E tudo bem se ele trabalha demais, você precisa respeitar — já pensou se ele não trabalhasse?”

É cada vez mais difícil amar. E encontrar um amor. E encontrar um amor que atenda a todas as suas expectativas. Que não decepciona.

É difícil se apaixonar. Precisa se entregar, mas já estamos blindados dos relacionamentos anteriores. E se não der certo? E se eu sofrer? E se eu fizer alguém sofrer? Se é pra sofrer então não vou nem começar. Se já sabe que não vai dar certo, não tenta.

É mais difícil ainda continuar amando. Porque a vida acontece, a rotina chega, os problemas vêm de todos os lados e sempre dão na cara do amor.

Porque depois de brigar com o chefe, descontar na comida e odiar a vida, você tem que chegar em casa e amar. Você tem que chegar em casa e ser amada — afinal, você merece. Onde já se viu não ter amor quando chega em casa?

Eu sempre quis 100% de amor. Daqueles destruidores, enlouquecedores, avassaladores. Eu só não sabia que isso era a paixão, mas não o amor. É deliciosa a paixão, mas ela não é amor.

O amor é só 20%. Porque os outros 80% são dedicação. Paciência, resiliência, boa vontade. 80% é também respirar, ponderar, ceder. É aprender a conviver com o diferente, mas não com o errado.

Quer ter relacionamento, e sair com as pessoas do aplicativo? Pode. Só precisa ser combinado antes.
Quer amarrar a pessoa em casa e não deixar usar roupa curta? Não pode.
Quer se jogar em um amor louco (aka paixão) e quebrar a cara? Pode.
Quer obrigar o amor louco a fazer tudo o que você acha que tem que fazer? Não pode.

O bom senso é a maior qualidade da humanidade, ainda que pouco valorizada. Use sem moderação.

E ame, se jogue, quebre a cara, tenha alguém ou alguns para quem voltar. O amor precisa ser vivido, e cuidado, e trabalhado todos os dias.

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Quer pensar mais sobre o assunto?

Considere assistir à série “you, me, her” no Netflix.

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