Eu tenho que ficar bem (?).
Há pouco mais de uma semana, eu perdi (fisicamente) a pessoa mais importante da minha vida.
A minha vó Zélia morreu de câncer num sábado, 05h da manhã.
Eu estava dormindo com a minha mãe de favor num apartamento de uma amiga dela, esperando acontecer, pra que eu pudesse resolver o que era preciso.
Fui ouvir do enfermeiro que ficou ao lado dela, na UTI, como foi o momento em que o coração dela parou.
Fui ao atendimento da Santa Casa, do Necrotério, fui ao cartório autenticar o atestado de óbito dela.
Tive a ideia de pedir a uma cabeleireira que a arrumasse do jeito que ela gostava, pois ela me fez prometer que não seria enterrada de cabelo feio.
Fui viajar em seguida, sem dormir, pra encontrar o resto da família, enquanto o corpo vinha com o carro da funerária.
Fui para a casa dela, vazia de alegria, encontrar meus primos, minhas tias, as amigas dela de longa data. Consolei gente.
Fui ao velório, esperei o corpo, abracei estranhos, olhei pra ela, desfigurada, no caixão.
Chorei, sorri, fiquei em silêncio.
Esperei minha irmã chegar de viagem, falando com ela no celular, preocupada com tudo.
Levei os tios e primos que vieram de longe pra comer na casa dela.
Tomei banho e pus a mesma roupa, ainda sem dormir, pra continuar no velório.
Olhei para o celular, chequei as mensagens, olhei a hora passar.
Vi minhas tias e minha mãe chorarem.
Dormi uma hora e meia, acordei no susto, fui enterrar ela.
Vi até os homens colocarem cimento em cima de tudo, posicionarem as flores e homenagens.
Fui embora do cemitério olhando os túmulos e imaginando quanto tempo passa antes de a gente se conformar, entender, seguir em frente.
Fiquei calma. Fiquei serena.
Explodi.
Gritei tanto no domingo, que estourei umas veias do rosto, fiquei cheia de pintas roxas e dolorida.
Não conseguia falar de tanto que gritei enquanto chorava.
Minha prima, tão nova e tão sábia, chegou perto do meu ouvido, enquanto eu tentava recuperar o ar, e disse: “Pode chorar. Você pode chorar”.
Parecia óbvio que eu podia sofrer, né? Mas pra mim, não era. E ainda não é.
Quando voltei para a minha cidade, fiquei sozinha, encarei a rotina, continuei a me conter.
Encontrei os amigos, mais abraços, mais vezes explicando o ocorrido.
“Ai, mas ainda bem que você está ótima”.
Eu pensei em dizer que não estou. Pensei em perguntar porque diabos as pessoas acham que eu estou ótima. Mas resolvi dizer: “É”.
Eu fui a uma festa, eu bebi um pouco, eu comi, eu contei piadas, eu trabalhei, eu fiz uma nova tatuagem, eu arrumei meu cabelo, eu passei maquiagem, eu dancei.
Mas, quando o meu coração apertava, quando o choro queria sair, quando eu me sentia sozinha e com saudade, quando eu queria ligar pra minha vó e ouvir a voz dela, mesmo sabendo que não podia mais, eu não conseguia falar sobre isso.
E só agora me dei conta de que isso é porque eu sempre achei que tinha a responsabilidade de ser feliz.
Eu sou sempre animada. Eu nunca estrago o role. Eu nunca peso nos lugares. Eu sempre quero ir, onde quer que seja. Eu como o que tem pra comer. Eu faço sala pras pessoas. Eu trabalho bastante. Eu como na mesa, com as meninas que moram comigo. Eu divirto meus amigos. Eu reclamo mas, cinco minutos depois, já esqueci. Eu me divirto com qualquer coisa. Eu sempre, sempre, sempre estou bem.
E agora? Como é que eu quero, de repente, não estar?
E eu não estou. Tarde demais. E como é que vocês, que estão na minha vida, vão fazer?
Vão meu ouvir? Vão desistir do role porque eu preciso de ajuda? Vocês vão me dar carona quando eu estiver cansada de andar? Vão me perguntar se “está tudo bem”, querendo realmente ouvir a resposta? Vão entender quando eu estiver triste? Ou louca? Ou meio maldosa?
Vocês vão me obrigar a comer, me lembrar de ir no dentista, medir minha febre?
Vocês vão lembrar de mim na quarta-feira, enquanto voltam pra casa, e mandar um whatsapp?
Vão perguntar se eu quero conversar, ao invés de contarem seus problemas?
Ou vocês vão me contar histórias intermináveis sobre a vida de vocês, como sempre, esperando meu conselho?
Ou vão fingir que não perceberam que eu estou triste, ou sem fome, ou sem paciência?
Vocês vão ignorar minhas mensagens, vão me deixar dormindo sozinha ou triste?
Ou vocês vão continuar com essas caras, como se eu tivesse que ficar bem logo?
Por mim, pela minha mãe, pela alma da minha vó. Pela nossa festinha que já estava marcada, pelo churrasco do fim de semana, por vocês.
Como vai ser?
