Sobre aceitar nossa própria companhia

“Nossa, mas você gosta de ficar sozinha???”
É o que escuto em 95% das vezes que conto que moro só. 
E, geralmente, vem seguido de algo como:

“Você não tem medo? Você consegue ficar no silêncio? Eu não gosto. Eu quero sempre estar perto de pessoas. Preciso de barulho. Tenho medo de acontecer algo. Se eu ficar sozinho eu piro.”.

Antes de realmente me mudar de lar para viver sozinha, eu até imaginava que talvez pudesse me arrepender. Queria muito me encontrar, mas tinha um pouco de receio de, de fato, as pessoas estarem certas sobre essa tal solidão ser um baita problema. Até então eu tinha o conforto de dizer que as coisas não eram como eu queria, porque, afinal, eu era uma coitada que precisava ceder ao fluxo da casa onde morava. Quando eu não tivesse ninguém por perto, como daria conta de tudo e, se não desse, como culparia alguém por minha ‘vida miserável’? E se eu me encontrasse e descobrisse que não era bem o que eu queria achar???

Se eu te contar que, no aniversário de dois anos vivendo só, eu já não sei mais como viver sem mim, você acredita? Não vou dizer que é fácil. Nada é.

Mas estamos sempre preocupados em estar cercados de pessoas, fazendo coisas juntos, vendo programas de TV sentados na sala, comendo o jantar com muitos sentados à mesa. Num festival de ‘nós gostamos de’, ‘nós costumamos fazer tal coisa à noite’, ‘eu e fulano assistimos a série xis’.

Em geral, isso é o sinal do sucesso pessoal. De alguém que vence na vida diariamente porque consegue estar sempre falando e sempre acompanhado, mesmo que seja nada de importante - nem o assunto, nem o ser humano, apenas para preencher o vazio do silêncio que é atordoante do lado de fora da mente, quando ela mesma não consegue se aquietar.

Se gostam de viver assim, ok! Não existe fórmula para viver a vida.

Já pararam para pensar que, na existência constante do ‘não posso estar sozinho’, é bem difícil definirmos o que somos e o que gostamos em particular? Ou quem sabe até mais profundo que isso: a necessidade de estarmos com alguém o tempo todo tem bastante a ver com ‘é melhor eu nem saber quem de fato sou’?

Assumir que o que você quer mesmo é assistir mil vezes a um mesmo episódio de Friends à ver 13 Reasons Why porque esse é o seriado que está na moda? Que você quer jantar iogurte com banana e não o strogonoff que fizeram fresquinho e você está fazendo desfeita se não comer uma pratada? Que a cama pode, sim, ficar desarrumada durante o dia e ninguém vai ver e nada de ruim acontecerá na sua vida por causa disso? Que você quer passar o dia de pijama deitado no sofá porque é disso que você precisa sem ninguém questionar a sua falta de vontade de socializar? Que você quer sair de casa às 7h e voltar à meia noite porque seu dia foi super agitado e não tem que avisar ninguém que você não está em casa, mas está vivo?

Essa é a parte legal, claro. O lidar com os próprios pensamentos quando está sem atividade, não é muito — ao menos no começo.

Mas hoje, o que desejo a todos os que não desfrutam da sua própria companhia, ou, pior, tem medo dela é: se permitam! Nada é mais libertador do que saber como você de fato é quando ninguém está por perto.

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