Pontes e portos: não me refiro a obras civis

Pessoas vem e vão nas nossas vidas e isso se torna natural, conhecemos milhares delas, incontáveis rostos, personalidades e diferentes reações causadas no nosso interior. Robin Dunbar, antropólogo, psicólogo inglês e professor na Universidade de Oxford afirmou que o ser humano tem capacidade de manter uma rede de amizade composta por, em média, 150 pessoas.

A dificuldade de se entender porque poucos ficam e muitos se vão, chega pra diria 100% das pessoas. Certa vez me perguntaram como consigo lidar com tantas “idas”, “partidas” e “despedidas” sem me tornar um ser fragmentado, incompleto ou até mesmo infeliz.

É difícil acreditar que alguém que sempre esteve ao seu lado, hoje se tornou apenas um número nas redes sociais (ou nem isso). O drama de muitas pessoas chegarem e poucas permanecerem é motivo de confusão mental de muitos de nós, aceitar que alguém que se ama se tornou ponte e não um porto é complicado.

Quando digo ponte me refiro a todas aquelas pessoas que te conduziram até onde você está, é difícil olhar pra trás e agradecer por tudo que já se viveu quando o interior anseia por mais e mais.

Temos dificuldades de aceitar o fim principalmente pelo medo de “não conseguir” vivenciar os mesmos sentimentos com a mesma intensidade de antes. A maioria das pessoas que já tivemos ou ainda temos um relacionamento (nisso incluo amizade) são pontes e auxiliam no nosso crescimento, sendo com atitudes e lembranças negativas e/ou positivas.

Quando essas pessoas deixam nossas vidas por ausência física ou indiferença a sensação de vazio invade, a ansiedade se torna nossa amiga e o medo de não se ter alguém ao lado para poder apoiar-se se torna algo comum, aí que entram as pessoas que são portos.

Ser porto é acolher. É aquela pessoa que independente do tempo que não se falam, da quantidade de vezes que já discordaram, está ali pra te apoiar. Quando digo porto é normal se lembrar de algum ente da família porque é nossa primeira opção de “quem recorrer” quando se está passando por dias nublados, mas muitas das vezes o porto é aquele ombro amigo, aquela pessoa que independente da hora e lugar que encontra-se estará de prontidão para te ajudar.

Às vezes ansiamos por pessoas que sejam portos, que cheguem e fiquem. Que permaneçam ao nosso lado independente da situação, porém esse pensamento é egoísta, nem todo mundo quer ficar. As pessoas assim como os pássaros optam por ir, por não permanecerem presas a um só ambiente, uma só paisagem, um só sentimento; o desejo incessante pela liberdade grita bem mais alto do que aquela vontade de estar ali, numa rotina, num clima monótono, numa relação que não dá mais certo.

Implorar para que pessoas que são pontes fiquem e se tornem portos é dar murro em pontas de faca é querer manter algo ou alguém por pura vaidade, aumento de ego e felicidade própria, nem todo mundo vai ser feliz ao nosso lado, nem todo mundo vai estar contente na nossa rotina. Prender alguém do nosso lado é a mesma coisa de manter pássaros em gaiolas, o canto é de felicidade apenas pra quem está vendo, mas para quem está preso é um grito de desespero.

Da próxima vez que eu quiser ir não me obrigue ficar, voe comigo se essa for minha vontade ou fique satisfeito em assistir minha felicidade ao contemplar a liberdade, mas nunca, nunca tente me privar da sensação de que posso conquistar o mundo.