Clamor pela Quarta Onda: um manifesto

Traduzido da revista BRAAT (Be Radical At All Times) Click aqui para ler o original.

I. Prefácio

O que quer que a terceira onda do feminismo tenha se configurado primordialmente para ser, ela se tornou em um monstro completamente diferente.

A promessa era de ser um refinamento mais interseccional e progressivo da segunda onda do feminismo. Em algum ponto do caminho, ela foi esticada e puxada, cutucada e picada por homens (e mulheres ansiosas para agradar homens), finalmente se tornando a bagunça na qual nos encontramos hoje. Em sua busca incensante de evitar pisar em qualquer calo e de agradar cada ser humano do planeta, a terceira onda do feminismo alcançou absolutamente nada.

Na realidade, ela pisou continuamente no calo de cada mulher que clama estar ajudando: lésbicas, mulheres pobres, negras, meninas. E fez isso de forma a agradar e priorizar homens.

Ela não popôs nenhuma solução para o machismo estrutural que vemos na nossa sociedade. Ela encoraja mulheres a fazerem as mesmas coisas que os homens requerem de nós. Ela demanda que as mulheres joguem nossas irmãs do viaduto para que os homens passem livremente.

A terceira onda do feminismo é um gigantesco passo neoliberal, misógino e absurdo para trás.

Mas há esperança e ela reside nas mulheres que se negam a se submeterem.

Eu vejo esperança em mulheres como Gail Dines e Rachel Moran, que usam pesquisa, estatística e suas próprias histórias para falar e escrever sobre a opressão das mulheres.

Eu vejo esperança em mulheres como Magdalen Berns, que desafia predadores, homofóbicos, e misóginos através de vídeos informativos e hilários.

Eu vejo esperança em grupos femininos como The Untameable Shrews, que usam sua criatividade e habilidade para criar inesquecíveis artes de rua radfem.

Eu vejo esperança em cada garota que compartilha, discute e promove ideias radicais nas redes sociais, apesar do dilúvio de ameaças de morte, exposição e fotos de pênis.

Propor uma quarta onda do feminismo é o primeiro passo para deixamos a terceira onda no passado.

Porque o feminismo radical não é a história do feminismo mas seu futuro.

II. Nós somos

Antiprostituição e antipornografia porque estas são mercantilizações e objetificações das mulheres. Porque os fatos mostram que eles são facilitadores do abuso e do estupro. Porque nenhuma parte de uma mulher deveria ser comprada ou vendida.

Anticultura da beleza porque o valor de uma mulher não tem nenhuma base em sua aparência. Porque as tarefas requeridas de uma mulher para que esta seja “bonita” são descabidas e caras, no mínimo, e debilitantes na pior dos casos. Porque estas tarefas existem especificamente para subordinar mulheres.

Antigênero porque sexo é uma realidade biológico e gênero é uma construção social que existe para subordinar mulheres. Porque não existe algo como um “cérebro feminino” ou uma “personalidade feminina” ou uma “alma feminina”. Porque a opressão é um sistema do qual não é possível optar fazer parte ou não.

Anticapitalismo porque é uma sociedade capitalista, a mulher é uma fonte explorada.

Antifetiche porque fetiches são, mais frequentemente do que não são, produtos nocivos das culturas do estupro e da pedofilia.

Anti TERF/TWERF/SWERF* porque estes termos são usados simplesmente para silenciar qualquer mulher que discorde do pensamento de colmeia do feminismo mainstream. Porque não existe TERF/TWERF/SWERF*.

Anti-homofobia

Antirracismo

Anti qualquer discriminação a deficientes físicos.

Pró-escolha porque ninguém manda no corpo de uma mulher além dela mesma.

Pró-libertação porque não queremos ser empoderadas dentro de uma sociedade fundamentalmente opressiva. Porque nós queremos liberdade total desta sociedade.

Pró-fêmeas

III. As coisas que faremos

Decentralizar nossas vidas dos homens.

Centralizar nossas vidas ao redor das mulheres.

Relembrar, respeitar e honrar nossas predecessoras feministas — enquanto também reconhecemos suas culpas, seu racismo, sua homofobia, etc.

Nomear o problema da violência masculina.

Promover o pensamento crítico. Analisar e questionar tudo, não importa quão pequeno ou quão aparentemente garantido esteja para você.

Prover materiais/conteúdos/notícias gratuitamente e através de uma plataforma aberta sempre que pudermos, para acomodar mulheres de todos locais e de todas as classes sociais.

Discutir, inventar e utilizar diferentes estratégias de ativismo para efeticamente mudar o mundo real.

Debater reflexivamente e sem maldade, e ensinar nossas irmãs radfem a fazerem o mesmo. Debate contínuo fará nosso movimento soar como uma ideologia mais forte. Nós não somos um culto. Nós permitimos desacordo respeitoso e sempre criaremos oportunidade de ouvirmos umas às outras.

Criar nossos próprios espaços, materiais e comunidades onde não houver nenhuma. Centralizar nosso ativismo na criação, não na destruição.

Apoiar outras feministas radicais em suas empreitas criativas/pessoais/educacionais/políticas.

Considerar quais mulheres irão se beneficiar quando planejarmos uma ação política. Considerar quais barreiras iremos destruir rumo à libertação. Considerar como podemos expandir nosso ativismo para ajudar mulheres de todas as raças, classes, orientações sexuais e grupo sócio-econômico.

Pesquisar e apoiar empresas possuídas e artes criadas por mulheres.

Ter o trabalho duro de ser feminista.

*TERF Trans-exclusionary radical feminism TWERF Trans women exclusionary feminism SWERF Sex Worker Exclusionary Radical Feminist. Leia este texto aqui e este outro para entender o que são estes termos e porque eles são absurdos.