Do vazio de ser filha de um país que parece um jovem-adulto irresponsável

Bárbara Martins
Sep 4, 2018 · 2 min read
Essa é a Lei Áurea. Ela também estava lá.

Crescer no Rio de Janeiro é meio mágico. Andar pelas ruas do centro é ver construções do século XIX lado a lado do mar e de prédios construídos com vidro e aço. A transição de séculos das fachadas junto ao VLT que hoje corta a Rio Branco não se chocam; é tudo parte de um mesmo conjunto.

É meio confuso, mas é casa.

A Quinta é um pouco assim. O tanto de grama que tem lá é o quintal do que já foi residência imperial. E depois museu. Com um zoológico do lado. Vai entender. É o Rio. Não precisa de muita explicação. Só é.

E é casa.

É familiar, a Quinta. Como era familiar o Museu Nacional.

Eu andei nele como se estivesse em casa. Porque era. Como é o CCBB, a Casa França, o Palácio da Praia Vermelha, o Museu de Belas Artes, o Theatro Municipal, a Biblioteca Nacional. Porque a gente é do Rio de Janeiro. E aqui no Rio de Janeiro, a gente entra em construções tombadas e as habita como se nelas não tivessem passado damas de vestidos caríssimos que arrastavam no chão. Como se a aristocracia nunca tivesse sido dona deles. Como se as paredes grossas e os corrimãos lustrados fossem nossa casa de veraneio, nosso palácio, nosso jardim.

Porque, de certa forma, eles são.

É nossa história.

Eu já rolei na grama da Quinta. Fiz piquenique, trabalho, aniversário. Minha história se mistura com a daquela casa grandona que dá sombra à tarde pro morrinho que dá nas bicicletas. Lá de baixo, dá pra ver como ela é grande, imponente e até e um pouco melancólica em dias nublados.

É um vazio agora, né? É silêncio. Um pedaço que sumiu antes de a gente contar até três.

Nossa história foi pisoteada, roubada, reduzida a pó enquanto nós a encarávamos de perto.

Foi ali na Quinta.

No maior museu de história natural da América Latina. Com pedaços indígenas, egípcios, brasileiros.

Nós, acostumados a esperar, não compreendemos muito bem o que significa ‘nunca mais’.

Mas, como bons aprendizes, a gente achou que seria para sempre.

    Bárbara Martins

    Written by

    Produtora de conteúdo, fotógrafa, videomaker e intrometida na cena cultural.

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade