Do vazio de ser filha de um país que parece um jovem-adulto irresponsável

Crescer no Rio de Janeiro é meio mágico. Andar pelas ruas do centro é ver construções do século XIX lado a lado do mar e de prédios construídos com vidro e aço. A transição de séculos das fachadas junto ao VLT que hoje corta a Rio Branco não se chocam; é tudo parte de um mesmo conjunto.
É meio confuso, mas é casa.
A Quinta é um pouco assim. O tanto de grama que tem lá é o quintal do que já foi residência imperial. E depois museu. Com um zoológico do lado. Vai entender. É o Rio. Não precisa de muita explicação. Só é.
E é casa.
É familiar, a Quinta. Como era familiar o Museu Nacional.
Eu andei nele como se estivesse em casa. Porque era. Como é o CCBB, a Casa França, o Palácio da Praia Vermelha, o Museu de Belas Artes, o Theatro Municipal, a Biblioteca Nacional. Porque a gente é do Rio de Janeiro. E aqui no Rio de Janeiro, a gente entra em construções tombadas e as habita como se nelas não tivessem passado damas de vestidos caríssimos que arrastavam no chão. Como se a aristocracia nunca tivesse sido dona deles. Como se as paredes grossas e os corrimãos lustrados fossem nossa casa de veraneio, nosso palácio, nosso jardim.
Porque, de certa forma, eles são.
É nossa história.
Eu já rolei na grama da Quinta. Fiz piquenique, trabalho, aniversário. Minha história se mistura com a daquela casa grandona que dá sombra à tarde pro morrinho que dá nas bicicletas. Lá de baixo, dá pra ver como ela é grande, imponente e até e um pouco melancólica em dias nublados.
É um vazio agora, né? É silêncio. Um pedaço que sumiu antes de a gente contar até três.
Nossa história foi pisoteada, roubada, reduzida a pó enquanto nós a encarávamos de perto.
Foi ali na Quinta.
No maior museu de história natural da América Latina. Com pedaços indígenas, egípcios, brasileiros.
Nós, acostumados a esperar, não compreendemos muito bem o que significa ‘nunca mais’.
Mas, como bons aprendizes, a gente achou que seria para sempre.
