Beber, pra quê? Pra se perder, sem se preocupar

O centro da cidade sempre fora sinônimo de perigo quando a noite caía. Mas nem todos se censuravam de imaginar o quão bom seria um rolê daqueles que se começa no pastel do mercado municipal e terminava pegando metrô na estação da luz, quase pela manhã. Pela minha idade, pelo menos, e pelo meu receio, isso não seria realidade em pouco tempo.
 
Com o tempo avançando, minha idade amadurecia e meus amigos se tornavam um pouco mais corajosos, estendendo a mão com um “vamo?” e eu, sedenta por viver e ter o que contar, ia. Nem sempre pensava “isso pode dar merda”, minha ingenuidade não me deixava pensar tal coisa. Eu só ía.
 
Um ano antes da minha maioridade, eu já bebia. Quem não, não é mesmo? Meus amigos passavam pelos mercadinhos pelo caminho, posavam rostos maduros e compravam algumas garrafas de bebida barata pega com a desculpa de “comprar salgadinhos” dada para os pais. Nunca soube ao certo o porquê, mas saber que haveria bebida entre nossa saída, me excitava. Era uma forma de me sentir grande, sem ser. Porque ser de fato eu não queria, mas sentir-se uma jovem adulta é como sentir o gostinho da liberdade de quebrar uma lei e ser “livre”. Coisa que adolescente sente. Coisa que, com o tempo, se perde.
 
Para bancar os jovens conceituais, descíamos na estação Brigadeiro. Linha verde. Linha digna de um clipe do Cícero, se ele fosse paulista. Éramos desse tipo. Do tipo que usa óculos estilo John Lennon, ouve mpb atual, e cita cantor alternativo em texto só para dizer que “entende de cultura brasileira”. Mas na real, não entende é nada.
 
Barzinho? Caro. Pede RG. Casa de alguém? Nossos pais eram conservadores até um pouco demais. Festa de rua? Termina tarde, minha mãe não deixa entrar depois das uma da manhã. “Conhece algum parque?”. E assim íamos para o ibira mesmo. Andávamos, sentávamos em frente á uma das lagoas, abríamos as garrafas, pegávamos nossos copos e tentávamos ficar loucos.
 
Os patos viravam motivos de risada. Eu, talvez, a mais fraca de nosso grupo, os imitava, enquanto nadavam de um lado ao outro. Era muito boa a sensação de que a sua única preocupação naquele momento é se concentrar para não morrer. Afinal, era essa a primeira e mais importante regra do rolê: não morrer.
 
E nos perdíamos. Aquele era o nosso momento. Em casa, havia muito barulho, muito problema, muita angústia, muita conversa de adulto, e ali, fora do nosso quarto, havia um silêncio das coisas que apertavam o peito. Nos perdíamos dos trabalhos a serem entregues, das manias de perfeição, da não-aceitação dos pais, dos problemas do coração, da luta por uma vaga na federal, da necessidade de um salário mínimo. Precisávamos apenas de uns cinco reais pra comprar aquele vinho barato. Isso dava, deixava-nos leve e ainda não doía no bolso. Nos perdíamos entre nós mesmos. E a sensação? Era boa.
 
Se alguém ler isso, se um adulto problematizar o que eu disse, isso pode viralizar dizendo como o controle de bebidas para menores deve ser mais rigoroso. Mas o que isso vai mudar? Desde que meu pai era garoto, menor de idade, ia no bar beber uma dose de conhaque só para descontrair de que deveria levar comida pra casa no fim do dia. Deixa nosso barato. Deixa a gente rir feito louco, sem fazer mal a ninguém, só deixando a alma ficar um pouquinho mais leve. 
 
De mês em mês, nos encontrávamos na mesma estação, prontos para nos perder. E nos perdíamos. Só uma vezinha. Na volta pra casa, o efeito do álcool talvez maximizava a bad de que logo a leveza iria passar e os problemas pediriam resoluções. Fingir estar sóbrio e ir até o quarto sem cair era fácil. Talvez, até a ressaca do dia seguinte poderia ser fácil. Difícil mesmo era saber que álcool não é solução de porra nenhuma, e ir correr atrás de “ser alguém” que era a dificuldade. 
 
Os problemas dos jovens de hoje em dia são fúteis vistos de fora. Mas torturam nossa alma. Pressão para estudar, se formar, conseguir aquela vaga, ter dinheiro, ser feliz… Pode ser até bobo, visto de fora. Mas a noite, quando a questão de “quem eu sou?” vem, não há mente que aguente a pressão. Então, eu bebo mesmo. As vezes, duas latinhas daquelas bebidas da moda já me deixavam feliz. E, me perco, uma vez ou outra. Só pra esquecer que precisamos ser alguém. Esquecer meu nome, quem eu sou ou quero ser. Só pra tirar foto dos outros bem loucos, e ter momentos engraçados pra quase não lembrar e rir no meio do dia sobre. 
 
Só para me sentir jovem da forma como os filmes pregam que devemos ser. E ali, eu me sinto feliz. Despreocupada, sem me importar que eu tenho que mandar mil e um currículos no outro dia. Me sinto satisfeita com o que tenho. Feliz. Da forma que todos nós deveríamos ser, sem nenhuma gota de álcool.

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