MEU NOME É ZÉ — Art e Conscientização política.

Emanuel coringa interpretando o bêbado, personagem de Meu Nome é zé (Foto: Arthur Rodrigues)

MEU NOME É ZÉ, peça encenada pela Cia. Art e Riso da cidade de Umarizal, não me chamou a atenção tão somente pela qualidade técnica, mas pelo conteúdo forte que o enredo apresenta e tanto me fascina. A história encenada é antiga e, infelizmente, atual. Conta àquela velha história que ocorre em quatro e quatro anos e não é a olimpíada, copa do mundo, ano bissexto ou coisa e tal. É aquela velha história que todo mundo já sabe, mas parece que faz questão de tapar os olhos, os ouvidos e a boca: a disputada política pela administração pública. No MEU NOME É ZÉ um Zé qualquer tenta concorrer ao pleito eleitoral contra um sicrano que você geralmente só vai se lembrar do sobrenome. E em meio de tantas falas que fazem com que o público reflita sobre as consequências do seu voto, os ganhos e as perdas à sociedade, uma em especial me chamou atenção:

“O analfabeto político é aquele que bate no peito e diz, eu tenho nojo de política”

Essa frase é bastante comum e sempre me perguntei por que as pessoas têm nojo de política se é através dela que a sociedade se articula, funciona? Talvez, por que elas não sabem o que é política e só a associa com as politicagens que todo mundo já está cansado em ver. Mas o que o povo não sabe, e que MEU NOME É ZÉ enfatiza de forma tão clara e objetiva, é que esse suposto nojo faz com que o eleitor faça mau uso do voto, que é uma das armas que temos para tentar mudar e melhorar nosso bairro, nossa cidade e nosso país. É através desse nojo que muitos eleitores declaram ter que os maus políticos se aproveitam para fazerem suas politicagens. O eleitorado que declara ter nojo de política acaba não dando importância ao voto e quando não votam em branco acabam trocando o voto por um milheiro de tijolos — como é mostrado na peça. É muito mais fácil comprar um voto de alguém que tem nojo de política do que de um eleitor que sabe a importância da política, que sabe que uma escolha criteriosa muda tudo!

Uma vez que se tem nojo da política se cria uma ilusão de independência, de afastamento e falta de interesse por ela. Para o analfabeto político ele não precisa da política e acha que os políticos não influenciam sua vida. Ele esquece que os políticos são responsáveis por administrar a saúde, a educação, o transporte, as estradas segurança e tantas outras coisas que afetam diretamente a vida de todos. Muitos acham que só quem depende dos políticos são os funcionários públicos e os cargos comissionados e não se lembram de que quando a prefeitura atrasa os pagamentos o comercio também é afetado. Que quando as estradas estão em péssimas condições todo mundo sofre, seja com os acidentes provocados pelos buracos ou pelo aumento no preço dos alimentos, reflexo também da falta de manutenção das estradas. Então, ao menos que você seja um alienígena de outra galáxia infiltrado aqui na terra, SIM você depende da política tanto quando qualquer outro terráqueo.

Quando o nojo pela política for trocado por conhecimento da política, talvez os muitos Zés possam, quando eleito democraticamente, governar prefeituras e estados. Talvez a oligarquia que predomina nosso querido e sofrido estado acabe. Quando política for matéria de escola e o analfabetismo político for inexistente, o mundo com certeza será melhor. Mas enquanto o analfabetismo político ainda é realidade, espetáculos como MEU NOME É ZÉ vão levando conhecimento para esse povão que tanto depende da política, mas que tão pouco compreende sobre ela, apesar de sofrer as consequências diretamente de uma má gestão pública.

Em um momento em que a política tem sido tão debatida em nosso país, com pessoas buscando informações, tentando entender o atual momento em que estamos vivendo, MEU NOME É ZÉ não poderia vir em um melhor momento para vermos que o problema e a solução estão bem mais próximo do que pensamos. Que todos nós contribuímos para qualquer processo político. Uma forma gritante tão bem desenvolvida para mostrar que podemos sim mudar essa situação.

Bárbara Bezerra

Texto adaptado e publicado originalmente em blogdesamores.blogspot.com.br.