Medo de Dormir /Morrer

Cena do filme O Sétimo Selo de Ingmar Bergman (filmaço)

Será possível falar de morte sem tocar em temas como religião ou ateísmo? Posso tentar, mas uma vez ouvi uma frase muito interessante. Dizia que não havia nada mais católico do que ser ateu. Eu abri um sorriso de canto de boca em concordância com aquela análise de um maniqueísmo tão óbvio quanto o sol (que já foi uma representação de Deus). Mas vamos ao que importa.

Quando eu tinha uns 5, 6 anos, eu era sonâmbula. Meu estado de sonambulismo era entre o consciente e o inconsciente. Como se a problemática de um pesadelo estivesse viva comigo enquanto eu estivesse semi-acordada. Eu sabia quando ficaria sonâmbula porque eu tinha um sentimento durante o dia que acarretava naquilo. Mas eu não sabia o nome desse sentimento, então eu tentava explicar: “É como se um elefante e uma formiga levantassem vôo ao mesmo tempo. Um bem mais pesado e outro mais leve”. Anos depois fui entender que esse sentimento era a angústia, chorei quando descobri na terapia.

Durante meus 20 anos, tive minha primeira relação abusiva e isso me desencadeou uma série de problemas psicosomáticos. Começou com uma falta de ar. Depois tive relações abusivas no trabalho, o que ocasionou em diversas pintas vermelhas na minha barriga por conta de estresse. Depois passou pra uma gastrite crônica, sintomas esporádicos de depressão, tive minha segunda relação abusiva e quando fiz 27 anos tive síndrome do pânico por conta de falta de dinheiro para pagar contas (vou reescrever o texto que fiz para a Ovelha Mag sobre o pânico).

Durante momentos ruins da vida um combo sempre me acompanhou. A ansiedade, o medo de dormir e o medo de morrer, nessa ordem. De uma forma, deitar na cama e se entregar para ‘o nada’ por volta de 8 horas, sempre me pareceu aterrorizante. É como se deixar morrer, é entregar a sua consciência e ficar um grande período de tempo sem ela. Mesmo em bons tempos fico um pouco agoniada, me esforço para não pensar nisso porque adoro dormir e sei que é só esse momento da entrega que me é problemático. É o momento do último suspiro de consciência, tentar racionalizar a transição entre acordado e dormido (vivo e morto?), como se um véu separasse esse momento.

Parece sintoma de pessoas controladoras e na verdade acredito que seja mesmo. Mas também deve ser sintoma de pessoas que tentam ser controladoras porém sabem que é um sentimento completamente irrelevante porque por mais repetitiva que seja sua rotina, estaremos sempre à deriva.

Há tempos eu conseguia me equilibrar com a mochila da escola no ônibus, surfando sem apoiar as mãos e me sentia incrível por isso. Hoje em dia não tenho mais tanto equilíbrio. Sinto que minha coordenação motora vem diminuindo aos poucos. Quando penso em praticar algum esporte específico, sei que não tenho mais tempo de começar, não caberia mais no meu contexto. Poder beber alguma coisa na cama já me resulta desastroso, algo que em algum momento na vida achei que tinha dominado a arte de não considerar a bronca do meu pai por fazê-lo bem. Nossas pequenas manhas e pequenos prazeres vão se esvaindo. Mas outros surgem, claro!

Comecei a reparar que, depois de uma certa idade, nenhuma certeza (ao menos minha) poderia ser absoluta. Desconfio de pessoas extremamente seguras, de convicções extremamente fortes, ideologias concretas e pensamentos fixos. A cada desconstrução, a cada memória perdida (e eu sempre tive uma memória excelente), a cada braço torcido, a cada texto, a cada vivência, a cada copo de cerveja, rosto novo, há um ponto de vista diferente, e é importante absorver esses novos pontos de vista. Afinal, se a gente vai (poder) envelhecer, o que já é um privilégio, que façamos da forma mais interessante possível.

Nesse mês fiz 31 anos. Meus cabelos castanhos também estão perdendo suas certezas. Cada vez que pouso no espelho, me salta um cabelo branco. Sou uma péssima espírita por ter medo de morrer, eu sei. Acabei falando de religião. Tudo bem.

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