Alguém já se sentiu como uma caricatura? 
Como uma versão hiperbolizada de si mesmo, que contém toda essência do que você é ali, mas que não é tão profundo quanto um realismo, não expressa paixão na face, no olhar, é apenas uma representação que se utiliza de pontos fortes e que, de tantas vezes repetidos, os outros saberão que se trata de você.

Quero dizer, uma caricatura minha teria ao invés de olhos grandes, teria olhos enormes, ao invés de uma cara angular, um rosto completamente quadrado, ao invés de um nariz arrebitado, um nariz distorcido tal qual uma rampa de skate. Estas características, expostas de maneira tão superficial, perdem o brilho no olho e a facilidade que a pupila dilata, o jeito que o maxilar trava com um sorriso e como a face se torna mais angular pela distorção das bochechas, a maneira que o nariz formiga e passa a ficar vermelho quando algo constrange ou quando deixa sem jeito.

A caricatura, além de física, contém frases para efeitos cômicos que expressam ideias de maneiras banais para distinção da personagem. Que tal arte, música, cinema, quadrinhos? Que tal uma sopa de quem eu sou em frases rasas e inexpressivas só por questão de reafirmação do que eu um dia fui e já não sei mais quem sou, já que não existiria nada para se afirmar agora além de incógnitas.

Agora sou caricatura.
Ou me mantenho escondida e aterrorizada atrás de uma, desde que consegui virar uma versão mais amarga de mim mesma, mais descrente, mais ausente, mais só.

Mais só apenas porque não há nada mais a se falar a não ser reproduzir tudo aquilo que um dia fui capaz de gostar, de ironizar, de debater, de defender, resultando que é melhor ficar em silêncio enquanto se contempla a confusão mental de distinguir quem sou, muito além do que os cosmos querem que eu seja, e a angústia de precisar necessariamente ser alguém completo pra si, ainda que eu seja nada mais do que fragmento de uma colisão de átomos do que antes fora algo inteiro, mas que ninguém sabe ao certo o que foi.

A necessidade de ser completa é contra a natureza, talvez por isso seja tão difícil.

Igualmente difícil é como as galáxias se aproximam cada vez mais a cada segundo, arrastando não só o meu corpo como o teu corpo e corpos celestes maiores e mais significantes do que os nossos à fim de os colidirem e tudo começar de novo.

Talvez o recomeço não seja os destroços sendo cada vez mais destroçados, mas a união de tudo aquilo que estava disperso e incompleto e que fora separado pela eclosão anterior.

Talvez viver seja ser e deixar de ser, o tempo todo, e estar perdido e incompleto seja só uma fase da teoria do caos. 
Viva o caos por enquanto. 
A gravidade te trará de volta para o mesmo lugar.

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