Mito linear e a obstrução do pensamento

O vício principal do pensamento contemporâneo é o “mito linear”. Este mito consiste em constituir um privilégio metafísico sobre as visões (teorias) que ordenam a vida em sociedade. Ele se expressa de duas maneiras básicas nas duas tradições que constituem o pensamento contemporâneo. Chamo a primeira de “governança de governo”, em referência à centralidade que o governo exerce sobre a vida social. E denomino a segunda de governança de mercado, em homenagem à predominância do mercado na ordenação coletiva. Ao seu modo, as duas visões são herdeiras do “mito linear”. Este mito opera como uma lente fosca, que obstrui nossa capacidade de compreender e de transformar as estruturas sociais ao nosso entorno. Enquanto formos incapazes de superar os efeitos deste mito sobre nosso modo de ver o mundo, também seremos incapazes de libertar a força criativa e transformadora das ideias e da ação política.

I. Governança de governo

Começo pela “governança de governo”. Segundo esta visão, a sociedade está condenada ao desastre, a não ser que constitua um governo que monopolize o exercício do poder ou da solução do desacordo. Por conflito de interesses ou confusão conceitual, as pessoas são fadadas a disputas fratricidas, que ou terminarão em guerra geral ou em desagregação quase completa. A cooperação entre as pessoas será rara, se é que existente. Nenhum conhecimento se acumulará. A vida individual e coletiva, com mais probabilidade, terminará breve, segundo esta visão.

Contratualistas clássicos são adeptos deste pensamento. A começar por Hobbes, o pai-fundador da “governança de governo” (ou, pelo menos, quem melhor a sistematiza na modernidade). Locke e Rousseau, assim como seus intérpretes, dedicam boa parte de seu pensamento a qualificar a governança de governo. Porque desejamos viver sob um conjunto de regras admiráveis, discutimos a melhor maneira de organizar a trajetória coletiva para a consagração destas regras. Mas ninguém a nega.

II. Governança de mercado

A segunda tradição é a “governança de mercado”. Segundo esta visão, governo é, com muito mais frequência, a fonte de nossos problemas e não sua solução. Líderes coletivos, ainda quando agem de boa-fé, são enganados por seu próprio orgulho, ou possuem limitações cognitivas intransponíveis, o que desorienta seu raciocínio e decisão. Empresários e trabalhadores não são menos limitados intelectualmente, mas a diferença é que, no casos destes, os efeitos dos seus erros são limitados, ao passo que o erro dos governantes afetam sociedades inteiras. A verdadeira base de ordenação social, para esta tradição, é o mercado. O mercado é uma plataforma espontânea de cooperação coletiva, impulsionado pela especialização e a divisão do trabalho. Quando cada pessoa busca a satisfação de seus interesses, a sociedade paradoxalmente avança. O pai fundador desta visão — ou, pelo menos, quem melhor representa este modo de pensar na atualidade — é Adam Smith. É difícil dissociar suas ideias daquelas elaboradas por seu contemporâneo e amigo David Hume. Porém, A Riqueza das Nações sistematizou, de maneira clara e elegante, a força de nova visão de sociedade, orquestrada em torno de uma “mão invisível” que, se preservada e alimentada, seria capaz de nos conduzir ao progresso.

Pensamento econômico contemporâneo é herdeiro de Smith. A economia política clássica de David Ricardo, Stuart Mill e Bastiat qualificam o funcionamento da “mão invisível”. Ricardo qualifica a visão de especialização e elabora a influente noção de vantagem comparativa, que explica e justifica o comércio livre entre sociedades e países. Stuart Mill, na primeira parte de sua vida, oferece importante contribuição ao pensamento econômico, qualificando os efeitos da interação entre estado e mercado no funcionamento do mercado interno e internacional. Bastiat, com imensa clareza, nos ajuda a compreender o funcionamento do custo de oportunidade na economia. Na teoria das “janelas quebradas”, o autor demonstra como a intervenção externa no funcionamento natural do mercado gera prejuízo oculto — tão ou mais importante que o prejuízo aparente. Quando o estado intervém na economia, queima riqueza que poderia ser investida pelas pessoas, aumentando a produção e a riqueza. Socialistas econômicos, como Marx, purificam a lógica econômica de influências externas, em vez de corrompê-la. A diferença fundamental entre Marx e Smith é que, para o primeiro, a dinâmica econômica tende a exasperar-se (assim como inicialmente formulou Ricardo), ao passo que, para Smith, a economia livre nos conduziria ao progresso infinito. Em todos os casos, a governança de mercado de Smith é preservada, em sua essência, durante a história social. É verdade que novos termos e aplicações surgiram — equilíbrio, equilíbrio geral, tendência ao equilíbrio, modernização, desenvolvimento. Porém, a ideia de fundo permanece intocada: governança ´mercado.

III. Duas faces da teologia social

A governança de governo substitui Deus, como autoridade máxima da ordenação da vida coletiva, pelo Deus-Estado, sem o qual, não seremos sequer capazes de conviver em paz.

Hobbes — e seus discípulos rebeldes, como devem ser lidos, a meu ver, Locke e Rousseau — dá passo importante na socialização do sagrado. Porém, interrompe o caminho no meio. O argumento do autor pode ser decomposto em duas partes. De um lado, argumenta com fatos: sociedade alguma é capaz de prosperar sem o Deus-Estado. Basta ver a dinâmica política nas áreas da sociedade em que o contrato social não existe, como nas relações internacionais ou nas sociedades tribais, em que a instabilidade é plena e a vida é pobre. De outro lado, o autor apela ao realismo idealista: não é simplesmente um “fato da realidade” que as pessoas se comportem de forma desconfiada e potencialmente agressiva, que desconfiamos todos uns dos outros, que estejamos, portanto, sempre com um pé atrás, ainda quando somos protegidos por conjunto de regras e autoridades? Para Hobbes, não é racional, não é realista, não é desejável viver sem o Estado. O filósofo inglês sobrepõe, ao Deus encarnado do cristianismo, o Deus encarnado da política, no Leviatã. Sem ele, não somos nada.

O que a teologia atribuía ao Deus-encarnado e Hobbes confere ao Deus-Leviatã, o empirismo inglês agora atribui ao Deus-natureza. A diferença básica é que a “teologia”, antes transcendental, agora se imanentizou. Como Smith professa esta nova teologia? O passo decisivo está em explicar a salvação como fenômeno natural e histórico. Assim como os estóicos, Smith irá encontrar na natureza a “lógica de funcionamento” da sociedade. E assim como Joaquim de Fiore, Smith delimitará a sequência de evolução história. A diferença em relação aos estóicos e aos teólogos medievais é a explicação das dinâmica econômica de funcionamento histórico. Fiore criticou Agostinho ao interpretar a Santíssima Trindade não como 3 traços de um mesmo ideal-transcendental, mas como três etapas de um processo histórico conducente à salvação. Pois Smith irá explicar o funcionamento social como uma progressão histórica de sociedades rústicas e pobres a sociedades especializadas e ricas. Esta sequência histórica será organizada a partir da relação entre empresários-proprietários-trabalhadores, cada um perseguindo a sua remuneração (juro-aluguel-salário). A força da mão invisível, que conduz a história em direção ao progresso, será tão mais forte quanto mais capazes formos de reconhecer e libertar a força econômica de uma coletividade.

O Deus-Leviatã e o Deus-mercado substituem o Deus-encarnado. Trocamos um homem de carne e osso (alimentado pelo amor) por um ídolo-todo-poderoso e por uma máquina-toda-poderosa. Somos herdeiros destes misticismos: o mito do governo para a paz, e o mito do mercado para o progresso — enquanto o mito religioso resiste e provoca e, em alguns casos, consegue provocar novos horizontes. Lutamos entre um e outro, disputamos melhores condições segundo as quais cada um pode e deve se ordenar. Mas batalhamos na superfície, sem tocar no ideal profundo que lhes orienta em comum. Juntos, governo e mercado constituem a matriz moral da vida moderna. Para que mais rapidamente nos conduzam ao destino final da história, debatemos as melhores condições em que a ordem (legítima) e o progresso (eficiente) devem operar.

IV. Mito linear e obstrução intelectual

O que está por trás de ambas as visões, e de sua síntese imperfeita, é um “mito linear”. Ceticismo de Hobbes, pai-fundador da governança de governo, é abafado por três metafísicas. A metafísica do indivíduo unívoco, com a personalidade comandada por paixões segundo doses e rumos predefinidos. A metafísica da sociedade rígida, colada por peças em uma ordem necessária e imutável. A “metafísica do medo”, de que a mera possibilidade de ser diferente é suficiente motivo para não-tentar. Ceticismo de Smith, pai fundador da governança de mercado, é abafado, por sua vez, por outras três metafísicas, não muito distintas das metafísicas hobbesianas. O self-serving individual, a sociedade de mercado tendente à especialização e à produção exponencial de riqueza. E também a “metafísica do medo”, segundo a qual, agir de outro modo, implica condenar massa de pobres à miséria e ao sofrimento.

Este mito promove imenso desserviço ao debate contemporâneo. A razão é que obscurece nossa capacidade de compreender real funcionamento da sociedade — da economia política contemporânea. Infestamos com vícios intelectuais a dinâmica social, para compreendê-la através de lentes desfocadas. Entre utilizar as lentes viciadas ou trabalhar desequipados, a mão limpa, no complexo mundo da vida social, acabamos por nos entregar ao existente, sem muita alternativa.

Pensamento contemporâneo não tem sido capaz de superar estas duas transcendentalizações. Hegel avança o pensamento de Smith, como reconhece em A Filosofia do Direito. Marx, embora crítico da economia política clássica, busca desconstruir a visão de sociedade capitalista, purificando, contudo, o pensamento econômico de suas influências ou conclusões indevidas. Ao seu modo, no céu ou na história, “o mito linear” vige como sempre. Enquanto este cenário prevalecer, contudo, também subsistirá a nossa imensa incapacidade de compreender e julgar os reais desafios da sociedade.

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