Alvura Defloradora

Foto de Gustavo Ronconi

Sou branca.

Minha brancura pode cegar e quem sabe já não foi confundida com a luz do paraíso.

Vazia.

E mesmo vazia, tenho dentro de mim uma mesa cirúrgica, uma pia mal agradecida e nenhuma fresta de ar. Meus acessórios são vergonhosos e a cada vez que são tocados, um arrepio gélido corre por entre meus tijolos.

Estou cheia de arranhões nas minhas paredes e gotículas de sangue no meu carpete.

Sou muda.

Muda pois, vendo tudo o que já vi, nunca pude fazer nada para ajudar.

Sou surda, por opção.

Ouvir aqueles gritos agoniados e berros cheios de agudos doloridos e graves angustiantes pedindo socorro, me forçou a ignorar aqueles e qualquer outro tipo de som.

Sou friamente limpa.

Já tive amantes descompensadas que sempre tentaram escapar de mim. Me doía tanto! Ver aqueles rostinhos amargurados pedindo socorro a cada vez que o lenço se soltava de suas bocas. Me doía mas eu gostava. Eu senti em todas as vezes os dois lados da história, o delas e o dele.

O dele, é com certeza mais gratificante, já que aqui, ele é que manda e consegue alcançar seu objetivo. Já o delas, me deixa assustadoramente horrorizado com o tanto de perversidade que pode residir em um único homem. Eu sinto o medo delas, mas também sinto o tesão doentio dele, quando na verdade não deveria sentir nada, já que sou apenas sua sala.

Branca.

Vazia.

Acolchoada.

Sou só a sala.

Que não fala.

Que não ouve.

E que não sente nada de verdade.

Apenas escuta e sente muito pelas vítimas da tribulação feita com carinho pelo meu proprietário.

Vazia.

Sozinha.

E desamparada.

No final, sou só mesmo, uma sala.