Atrito

Foto de Gustavo Ronconi

Transcrevo-me para a pauta silenciosa,

que retira sua melodia violenta.

De músicos escondidos na memória do tempo,

que nos travam a garganta seca ao ouvi-los logo de manhã.

Sinto o mover do espesso invisível,

que escorre pelas minhas mãos nostálgicas;

o ritmo frenético da vibração das coisas,

que me faz pensar em pensar em nada.

Sente-se o atrito da superfície do mundo,

que pesa e se faz desesperada na atmosfera,

ao deslizar sobre a textura líquida do infinito intangível.

Vejo rosas raivosas dizendo que nos querem por perto.

Sente-se esse sabor áspero na boca,

que deixa escapar desapegos gritados no vazio da imensidão.

Essa sensação de vida

que me escapa em morte;

essa aparição inegável do existir,

me faz sentir os braços que não tenho, e deixo de querer aguentar o peso bruto e inabalável cada vez mais profundo em mim.

Os lances de escadas são maiores e mais altos,

e estão prestes a enlouquecer na presença ensurdecedora do meu existir,

que me olha e me chora,

por só existir.

Intertextualidade com Dinis Oliveira