É urgente falar sobre suicídio

As mortes chocantes em um condomínio na Barra da Tijuca mostram que silenciar o assunto não basta.

Até esta segunda-feira, quantas vezes você já tinha lido uma reportagem sobre suicídio? É possível que nenhuma. Saiba, então, que a tragédia ocorrida na Barra da Tijuca é uma exceção. Não porque não aconteça, mas porque histórias como esta não são publicadas — para o bem e para o mal.

O caso só se tornou público porque, na primeira hipótese da polícia, se desconfiava de um homicídio como o da família Nardoni. Tarde demais quando surgiu a possibilidade de o pai da família ser o suspeito…

O tema é um tabu no jornalismo. Quando um jovem repórter entra numa redação percebe que ali se fala de (quase) tudo. Furto, roubo, estupro, álcool, drogas. Tragédias de todos os tipos, exceto aquela. Um longevo entendimento da academia trata o suicídio como peste contagiosa. Se dela tiver notícia, o leitor pode ser incentivado a fazer o mesmo.

A hipótese é verdadeira, mas o cuidado e a restrição são exclusivos. O mesmo não acontece com crimes comuns. Há estudos que mostram o aumento de estupros, por exemplo, após um caso de impacto ser amplamente noticiado. E não há dúvidas de que o Estado Islâmico tenha se expandido também graças à imprensa.

Tudo bem que, quase sempre, a intenção é denunciar. Para certas pessoas, no entanto, o que deveria ser uma crítica pode soar como sugestão — e isso vale até para os eleitores de Donald Trump. Não é nada fácil falar de uma doença a uma sociedade doente.

O caso no condomínio de luxo da Barra da Tijuca evidencia, porém, que o silêncio também é perigoso. Não que se deva passar a individualizar os casos ou narrar mais mortes. Mas é preciso discutir o que leva a elas.

É urgente falar sobre razões, sintomas, doenças. Como pode ninguém ter percebido a dor de uma pessoa capaz de tomar atitude tão drástica?

Talvez porque as pequenas aflições do dia a dia não sejam sempre tão pequenas assim: dificuldade financeira, estresse, ansiedade. Ou a obsessão por um padrão de vida estabelecido de fora para dentro. A saúde mental é, ou pelo menos deveria ser, uma questão de saúde pública.

Por isso, o jornalismo também é cúmplice quando um parente é incapaz de saber que seu filho, seu pai, ou sua mãe tem um problema que pode levá-lo a dar cabo da própria vida.

Quem é formador de opinião não pode se eximir de sua função educativa. Psicólogos e psiquiatras devem ser ouvidos. E ter voz.

No auge da ignorância empírica os jornais se dividem entre a enxurrada denuncista e o oba-oba — separados por um abismo chamado omissão. No fundo, no fundo podem querer mudar o mundo. Mas, assim, é possível que estejam mudando para pior.

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