Bolsonaro e a aliança liberal

A um ano das eleições, a ameaça Jair Bolsonaro (PSC) — na definição da revista Veja — se torna mais concreta. A atualização de um discurso econômico pró-mercado e o flerte com quem promoveu os movimentos de rua anti-Dilma tornam sua candidatura cada vez mais viável, amealhando quem faltava.

Em viagem aos Estados Unidos, embora tenha fugido de debates, Jair foi recebido como um “apoiador da economia liberal” nas palavras de um dos anfitriões. Aos poucos, deixa de ser considerado uma Dilma à direita — de tão intervencionista.

Na viagem, a pauta de Bolsonaro foi definida como um “golaço” pelo principal movimento na campanha pelo impeachment da ex-presidente, o MBL. Eles concordam com o fim da CLT e da Lei Rouanet, querem menos impostos e a abertura para investimento dos vizinhos americanos.

Conservadores, os jovens do MBL concentravam o discurso na luta contra a corrupção até o afastamento de Dilma, dizendo-se apartidários. Agora, tomam partido. Mais do que nunca.

Alcançam 25 milhões de pessoas ao mesmo tempo em que são tidos como um dos maiores compartilhadores de notícias falsas.

Financiados pelo PMDB, do novo presidente da República, e pelo PSDB, cuja agenda o novo presidente da República sanciona, os agitadores se lançaram candidatos. Foram quase 10 empossados, como o vereador paulista Fernando Holiday.

Os que não foram eleitos aceitaram cargos comissionados. Tanto no governo de Michel Temer, quanto no de João Dória. Não falam mais de corrupção, tampouco saem às ruas contra o presidente mais impopular da História.

Desviando a ira do campo político para o campo cultural, e afinando o discurso com o do neoaliado, tornaram-se curadores de obras de arte em Porto Alegre e em São Paulo.

Preocupam-se mais com nus do que com a nudez do Rei, e seus 3% de aprovação.

Agora financiados por empresários, na contramão de determinação do STF, eles propagandeiam aquilo que as classes dirigentes pedem.

As mesmas que exigiram a implementação das reformas no governo Temer em troca de um silêncio sepulcral para que conclua seu mandato.

O desafio de Bolsonaro é defender medidas como essas, quase sempre impopulares, mas que agradem o mercado e não o façam perder votos. A missão é facilitada pelo governo de seu antecessor, ajudado pelos mesmos grupos, nas “atualizações” da previdência e nas regras de trabalho. Pouco restará ao próximo.

Se o presidenciável continua vociferando barbaridades no campo social, e isso faz parte do arrebanhamento de sua pré-campanha, a guinada pró-liberal atinge em cheio aquele que ainda precisa ser convencido: o meio liberal, meio de centro.

Aquele que quer o estado mínimo mas — ninguém o ouça — não se importa tanto com temas como o casamento gay ou a legalização das drogas. Liberal, pero no mucho.

A esses, bastará um nome de impacto no Ministério da Fazenda. A partir daí, o marketing de campanha há de se encarregar em dividir Bolsonaro em dois: para os conservadores, o mão de ferro; para os liberais, aquele que será comandado pelo ministro.

De ambos os lados vão esconder a parte que não lhe interessa: o liberalismo econômico ou o conservadorismo social.

Quem ignora a ascensão de Bolsonaro fecha os olhos para a eleição de Donald Trump nos EUA. Tenta crer que a população brasileira não é tão conservadora, mas pesquisas recentes mostram o contrário.

Um terço acredita que o estupro é culpa da mulher. Metade concorda que “bandido bom é bandido morto”. E, para ser eleito, metade basta.

O candidato do PSC expressa dogmas que a sociedade reforça e muitos outros que ela não tem coragem de concordar publicamente. Um exemplo:

O filho dele, Flávio Bolsonaro, foi candidato à prefeitura do Rio. Os institutos de pesquisa previam, no dia anterior ao pleito, 7% dos votos. Teve o dobro, 14%. Suponho que, embaraçados pelo próprio radicalismo, os eleitores não revelem suas crenças nem mesmo para alguém com uma prancheta na mão.

Embora não seja a primeira opção dos liberais, tampouco seja agradável para eles declarar este voto, Bolsonaro pode acabar se tornando inevitável. Sobretudo se Doria insistir em dar ração aos pobres e acordar mendigos com jatos d’água.

Neste caso, restaria a eles criar um candidato à sua imagem e semelhança — minimizando a verborragia. Mais perto de 2018, é possível que o ex-militar suavize o discurso e tente disfarçar sua predileção por tortura ou por um golpe.

Se não der para convencer, tudo bem. Desde que a economia seja colocada nos rumos de seus mentores. É assim que pensam, e como forjaram um presidente. Utilizando as urnas, talvez seja ainda mais fácil.

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