Botelho caralho

Confesso. Diante da polarização homicida de uma nação até então apolítica, confesso.

Que Deus me perdoe — e o fará, já que Ele foi seu cabo eleitoral: votei em Marina Silva.

Já se passam dois anos daquela eleição distante para presidente. As voadoras na jugular parecem singelas carícias apaixonadas perto da troca de acusações de hoje.

É um alívio. Nesta nossa Alemanha Tropical de 40 é como se não fosse nem nazista nem judeu.

Naquele canhoto do TSE que guardei como uma arma reside um habeas corpus para debates coercitivos de mesas de bar.

Confirmada a pesquisa recente que a coloca em primeiro lugar nas intenções de voto, no caso do dito golpe, seria eu o maior usufrutuário — para usar mais uma palavra da moda, brilhantemente empregada.

Mas sou contra o impeachment de Dilma, e um exemplo recente pode ser ilustrativo do porquê.

Não conheço o ator/diretor Claudio Botelho. Nem Dilma, nem Lula. Sei apenas que o artista encenou, conforme fartamente noticiado, uma peça de Chico Buarque e foi linchado verbalmente pelo grande público por atacar a presidente e seu antecessor em cena.

Já no camarim, e em particular, se rebelou. Disse que sua atividade não dependia do aval de um “nêgo” da plateia. A conversa vazou nas nefastas redes sociais — sempre elas.

Ironias da vida. O diretor se refastela com uma escuta telefônica e se torna refém de outra. Que espetáculo digno de um musical!

Acusado de racismo — nêgo ou negro? -, nem precisou citar a Receita, Maricá, meia dúzia de grelos duros ou a vida sexual aparentemente irregular de uma correligionária.

Bastou a publicidade do áudio para que fosse julgado pelo grande público. Que, assim como eu, não o conhece, não conhece Dilma e não conhece Lula.

E eis que, enfim, chegamos ao ponto G — outro que não mais o grelo duro.

Aos leigos, sobram indícios da acusação de um crime sobre o qual ninguém é condenado nesse nosso ex-apolíticopaís, o racismo?

São remotas as chances de que o sítio em Atibaia — merda de lugar — sejam do ex-presidente?

Que Lula e Dilma não soubessem de tudo das estatais e das empreiteiras?

Que todos eles não soubessem que a roda viva roda moinho, roda peão?

Talvez.

Mas que a Justiça se esgote, é o que espero. Para todos.

Para a plateia do nosso coliseu e para os mestres imbatíveis na arte de encantar e ludibriar o público. Nos palcos ou nos congressos.

Like what you read? Give Gabriel Barreira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.