Fica, Montillo

Há anos, insistem que a torcida do Botafogo cabe num carro. Os trinta da kombi, dizem.

Que fôssemos, Montillo. Ainda assim seriam minoria os dois idiotas que o acusaram de roubar o clube por quase não ter jogado. Seriam somente 7%. Sete, anote. Número cabalístico. Do Garrincha, do Túlio, seu.

Os mesmos sete minutos que você ficou em campo e que foram suficientes para você querer largar tudo. Ignore-os. Mais importante que eles, foram os cinco minutos anteriores. O Botafogo, Montillo, é capaz de fazer história antes mesmo de a bola rolar.

Gritamos o nome da Giulia, filha do Roger, duas vezes. O estádio inteiro — vinte mil pessoas. A menina de 11 anos, que é cega desde que nasceu, disse que nunca se emocionou tanto. “Foi o melhor dia da minha vida”.

Perdemos, mas pouco importa. Somos como o refresco do Chaves. Temos os jogos difíceis, que parecem fáceis; os jogos fáceis que parecem difíceis; e os jogos ridículos que têm gosto de impossível.

Dizem que somos chorões, Montillo. Falo por mim: quando vi a menina virada para o pai, incrédula, balançando os braços, chorei copiosamente.

Assim nós somos. Passionais, intensos, bipolares. Preto e branco.

Se falta qualidade ao Roger, que a paixão compense a falta de técnica! Forjamos nossos ídolos. Pergunte ao Maurício, ao Dimba, ao Sinval.

Eles não precisam ser craques, nem os gols salvadores são deles — para isso, já temos Jairzinho, Nilton Santos e tantos outros…

O gol do título da Libertadores não precisa da grife de um argentino, não vai ser de placa. Não vivemos sem o sofrimento.

O maior jogador que veste nossa camisa hoje em dia é um goleiro. Reserva. E não joga há um ano.

O Montillo do Santos, o Montillo do Cruzeiro ainda não apareceu. Vai aparecer, mas não é por isso que pedimos que não se vá.

Todos os nossos jogos são líricos, poéticos. Se tudo parece dar errado, é lógico que vai dar certo. É por isso que pedimos.

Se estamos na zona de rebaixamento e assume um técnico desconhecido, vamos para a Libertadores. Se um volante vai mal e é execrado, é dele o gol da classificação num ano e a bola de ouro no outro. Se o terceiro goleiro entra no segundo tempo de um mata-mata da Libertadores, defende três pênaltis.

Permita-se virar história, Montillo. A torcida do Botafogo não está na internet, está no estádio gritando o nome da a da Giulia. Que sejam 30.

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