Temer: 5% de aprovação e nenhum protesto. Por quê?*

A popularidade do então governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), despencava. Chegava a ridículos 13%. Era 2013, época de manifestações proféticas: não eram só 20 centavos, como revelaria operação do Ministério Público Federal. O Governo concedia aumentos na tarifa em troca de propina.
Inflados pela solidariedade contra a brutalidade policial, até que a violência dos próprios manifestantes cortou o laço, os protestos eram diários. Hoje, no entanto, não há uma só panela sendo batida contra o presidente, cuja aprovação é ainda menor do que a de Cabral à época. Míseros 5%.
Dizem que o povo cansou de protestar. A tese é conveniente, mas basta recordar de junho de 2013 e sua incansável jornada para comprovar que é equivocada. Se não dissimulada.
Há quatro anos, os protestos convocados por redes sociais ganhavam a adesão de milhares de pessoas em minutos. Não demoraram a aparecer grupos surfando na insatisfação depois de nascida a onda, mas o movimento nasceu sem líderes. Horizontal e anônimo, como diziam.
Dois anos depois, os protestos que culminam no impeachment nascem com outra lógica. São convocados por grupos que se dizem apartidários, de viés anticorrupção, ou até mesmo por federações que representam o empresariado.
Seduzida pelo discurso, a rua alça à fama novatos no mundo político. “Primeiro, a gente tira a Dilma. Depois..”. Não demorou para que a História os desmentisse.
Áudios obtidos pelo UOL revelaram que as manifestações eram financiadas por partidos políticos. Uma contradição insustentável tanto para quem se dizia apartidário, quanto para quem dizia que protestaria — até o fim — contra corruptos de todas as matizes.
Dentre os financiadores estava o PSDB de Aécio Neves, derrotado nas urnas e agora investigado no Supremo, e o PMDB do atual presidente Michel Temer, denunciado por corrupção passiva.
Os partidos são os mesmos que abrigam alguns dos líderes destes movimentos em cargos comissionados, como revelou a Folha. Outros se elegeram e integram siglas tradicionais como o DEM, que nasceu do PFL.
O silêncio, portanto, não é mera coincidência. Nas urnas ou na indicação política, os objetivos foram conquistados.
Nem mesmo quando áudios de Joesley Batista revelavam que Temer aceitara comprar o silêncio de Eduardo Cunha, os neoagitadores pediram a cabeça do presidente. Marcaram um protesto, mas desmarcaram no mesmo dia.
Já os grandes empresários, principais defensores das reformas trabalhista e tributária, se escondem num cômodo silêncio. Têm em Temer a chance de aprová-las. Tampam o nariz para engolir o amargo remédio e fingem não perceber o mar de esgoto ao redor do presidente.
Os amarelos da Fiesp diziam que não pagariam o pato, mas não marcaram sequer um panelaço contra o aumento dos combustíveis.
Resta o povo, principal prejudicado, sem força e sem líderes. Esfacelado entre uma esquerda estigmatizada e uma centro-direita inerte — até satisfeita.
As ruas não se cansaram. Só deixaram de ter o financiamento econômico e moral que tinham de partidos e empresários, escondidos por trás do cinismo de seus interesses particulares.
Enganados, os ex-manifestantes sequer têm força para projetar um novo herói. Não têm a quem seguir nas Avenidas Paulista e Atlântica, pintadas de verde e amarelo, agora cinzentas. A insatisfação latente continua. Há demanda, mas não há oferta.
São as leis do mercado. Cujas reformas vão bem, obrigado.
*Texto de julho de 2017 mas nada mudou. Exceto a popularidade do presidente, que caiu para menos de 5%.
