Apenas outra noite

Passava as noites a pensar nas mesmas coisas, nos mesmos anseios, e nos mesmos devaneios de sempre. Mas, naquela noite, um sentimento mais profundo tomava conta de si, como se sua mente não fosse mais sua. Tão vazia, mas tão cheia de si ao mesmo tempo, que parecia algo insano!

Ficou horas divagando por pensamentos aleatórios. Alimentava vagarosamente a ideia de ser um completo fracassado, com suas autocríticas e uma certa dosagem de paranoia. Se lembrava das metas e promessas não cumpridas, da rotina “pé no saco” e do modo como suas escolhas mal feitas acarretaram para tudo estar como está. Os projetos deixados para trás, e principalmente a desistência de seus vários sonhos, e daqueles que ainda não realizou. Ao mesmo tempo se pegava olhando fixamente para o nada, vagando com os pensamentos como um grão de areia na imensidão do deserto, sem pensar em nada, apenas vagando, sem pressa pra cessar, sem contar as horas. Tirou a conclusão de que até as areias do deserto cumpriam seus papéis em formar lindas dunas, e ele ali, sendo um nada, sem valor pra sociedade nem pra ninguém.

E divagando assim caiu no sono.

Despertou pouco tempo depois. Decidiu colocar uma roupa mais leve e se entregar aos desejos do corpo, pois sabia que aquela briga com o espelho não teria fim, não sem sair dali ferido pelos seus próprios socos, nem cortado pelos cacos da realidade. Sabia que outro dia estava por vir e se alegrava em saber que as oportunidades estarão lá, de braços abertos, pra ele tentar novamente.

Foi dormir com um sorriso no rosto, pois conseguia ver beleza na tristeza e sabia que aquele ciclo duraria várias outras noites.

Pode parecer um pouco sem sentido, mas como explicar algo que nem mesmo ele entende?

A vida é cheia dessas.