O dia que eu ganhei uma cicatriz — de uma formiga.

Nove de Setembro de dois mil e dezessete.

Formigas peregrinam perdidas em minha mesa. Não sei qual é o itinerário delas, não sei onde elas querem chegar, não sei o que fazem por aqui. Há uma bagunça generalizada. Olho para elas inconformada como se estivesse comendo algo muito ruim. Minha testa ganha contornos nada desejáveis, minha boca entorta.

Uma recordação de infância intercepta minha mente. Um episódio doloroso que envolve formigas e um certo pé esquerdo. Não estamos falando sobre azar. Minha cara não é das melhores.

Algum dia de dois mil e alguma coisa.

Eu detesto formigas desde que eu tenho nove anos. Estava em alguma faixa de terra baforenta entre a Bahia e Brasília, um interior bem do moderninho, onde todos se conheciam e tinha até um shopping.

Deveria ser lá pelas 16h da tarde, quanto a criminosa me atacou. O sol já se preparava para decolar e eu estava descalça. Maldita falta de chinelos. Só pensava isso. Estávamos lá, nós duas no jardim, Lorena, minha prima resolveu pegar alguma coisa em casa, quando, uma formigona vermelha resolveu me sacanear.

Eu juro, que eu nunca ouvi um grito tão estridente como aquele. Era minha alma saindo do meu corpo. Naquele momento, gritei tão alto e tão fino que poderia comprometer toda a vidraçaria da casa da minha prima. A sorte é que o jardim era tão grande que a casa ficava longe.

Ela correu tão rápido quanto um projétil escapando de um revólver.

O QUE FOI, PRIMA???

Eu que estava no chão me contorcendo feito uma lacraia, falei:

UMA MALDITA DE UMA FORMIGONA ME MORDEU.

Ela me olhou como se tivesse cortado meu dedo com papel. Fez descaso. Eu senti o desdém pela reviravolta dos seus olhos castanhos âmbar.

Eu corri achando que você estava entre a vida e morte. Eu ouvi até o barulho da ambulância chegando. Tava imaginando tudo. Até o que ia falar pra meu pai. Mas foi uma formiguinha dessa que lhe picou. Faça o favor, levante e se recomponha.

*Entre risos*

Lorena deveria ter uns doze.

Eu levantava achando que tinha tomado um benzetacil. Só uma picada de formiga, né. Eu pensava irritadíssima. Mas aquilo doía tanto que não sentia o meu pé. Chega até ser ridículo. Eu apertava incansavelmente para estancar o sangue se formava.

Eu demorei umas quatro horas para me acostumar com aquela cicatriz horrorosa. E a dor que aquilo me causava. Só pensava em xilocaína. E o que ia falar para convencer minha mãe a me fornecer o remédio.

Moral da história: hoje, eu tenho uma cicatriz vermelha, tal como aquele animalzinho rubro que me mordeu. E um certo pavor desses bichinhos rastejantes.

Minha mesa ainda está com as formigas. Elas se espalham pela tela. Pelo teclado. Pela mesa. E não há doce.

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