A developer's cry for help
Diogo Beda
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Diogo,

É com imensa tristeza que leio teu texto. Uma por, assim como você, ser programadora. Outra porque vivi boa parte da vida em Goiânia. E a terceira, e mais dolorida, é por ter me sentido exatamente como você por um bom tempo.

Eu sempre notei, desde que comecei minha carreira, que me desmotivava muito facilmente. Trabalhos que me deixavam acomodada destruiam minha autoestima e ânimo.

Com o passar o tempo, esse sentimento continuou, até mesmo em trabalhos empolgantes. Em um ou dois dias já sentia meu ânimo diminuir, até chegar ao ponto em que, no meu último emprego formal, chorava antes de me levantar, pensando que todos os dias daquele sacrilégio eram ótimos dias para me acidentar fatalmente - e você pode imaginar o quão horrível é isso.

Em 2015, saí desse emprego em janeiro. Na época, morava sozinha, não tinha poupança e nenhuma forma de entrar dinheiro em vista - ainda assim, pedi demissão, e por ajuda do destino, consegui um seguro desemprego, e decidi que não seria mais programadora.

Durante os meses que passaram, fui totalmente não produtiva, sem dinheiro e sem sonhos. Atrasei todos os pagamentos possíveis, inclusive aluguel, e por incontáveis vezes não tinha dinheiro nem mesmo para comer.

Enquanto recebia o seguro, consegui fazer viagens que nunca imaginei serem possíveis na minha atual situação, todos eles sendo convidada para palestrar em eventos incríveis. Isso me manteve sã por algum tempo.

Mas o dinheiro acabou, o ânimo para palestrar também, e passava dias em casa, trancada, sem ver ao menos um ser vivo. Dormia o dia todo e passava minhas madrugadas assistindo qualquer bobeira possível na internet.

Me tornei uma pessoa sem sonhos. Estava horrível emocionalmente, destruída psicologicamente, sem um centavo e totalmente sem perspectivas.

Estava cansada de ficar sem um tostão. Consegui um emprego remoto, que na verdade era mais para despreocupar minha mãe. Consegui viver assim por dois meses, mas sentia pressão demais. Não do emprego, mas de mim.

Eu tinha duas opções: trabalhar novamente e me sentir escravizada, ou voltar para casa dos meus pais, no interior - e só de pensar nisso, chorava horas seguidas. Para mim, naquele momento, era assinar um termo de fracasso.

Depois de dias, semanas, meses, pensando em alternativas do que fazer da minha vida, que envolviam fazer uma faculdade, mudar de estado ou mochilar pro resto da vida, tive um surto.

Abri o primeiro site de empregos que me lembrava, e pesquisei por vagas em SP. Eu PRECISAVA sair de onde estava, me encontrava em uma situação em que facilmente colocaria minha vida em perigo.

Enviei meu currículo para algumas vagas, e em menos de uma semana, recebia o email dizendo que queriam me contratar.

Trabalhar com TI era a coisa que menos queria. Meus planos à meses eram fazer ENEM, cursar Ciências Sociais e viver do jeito que desse. Mas eu sabia que eram muletas.

Tomei a decisão de mudar pra São Paulo instantaneamente. Mesmo sem conhecer a cidade, longe da minha família, sem ter uma poupança e nem esperanças. Foi fácil tomar a decisão, mas sabia que precisaria arcar com um peso que seria cobrado.

Assim que me mudei, me dei de cara com a revelação do que sentia: depressão. Apesar de sempre saber que já a tinha, não conseguia enxergar esse processo como um sintoma, mas, que bom que ele existiu.

Depois que me mudei, tive duas crises de depressão e uma de ansiedade. E foram as mais pesadas até hoje - ao ponto de pensar em me matar.

Esse processo foi necessário para que hoje eu saiba do meu problema, o assuma como uma adulta, e procure tratamento.

Escrevi esse texto relatando sobre como me sinto hoje e o que fazer para melhorar.

Diogo, disse tudo isso para que você saiba que não está sozinho. Que assim como você, muitos passam por essa situação. Quero que saiba que vai ficar tudo bem, porque vai mesmo.

E que todo esse momento, esse processo, e essa descoberta, são as coisas primordiais para sair da crise. E a crise cria coisas boas em nós.

Eu sei que não será imediato, então espero que você consiga enxergar coisas boas nesse momento, e que tenha forças suficientes para superar.

E eu sei que você vai conseguir. Gritar por ajuda é uma atitude nobre e corajosa, e estou certa de que, assim como eu, várias pessoas estão te agradecendo pela coragem de se expor.

Não nos conhecemos, mas estou a disposição se quiser falar sobre seus demônios internos, e quem sabe, não podemos nos ajudar a os enfraquecer?

Desejo força, esperança e fé - em qualquer coisa - para que você enxergue em pouco tempo que os dias ficaram coloridos de novo. E que tudo bem ficarem cinzas de vez em quando.

Abraços fraternos.