Representatividade Importa

Trabalho em rede, luta solitária: é nós por nós . fonte https://unsplash.com/photos/ahzw2Tg7IXs

Essa semana um amigo me perguntou se eu me incomodava em ser convidada para palestrar sobre mulheres na tecnologia e/ou demais coisas desse universo. Se não passava a falsa impressão de que as mulheres só eram convidadas para falar sobre isso — e que não seriam capazes de falar sobre assuntos técnicos.

Bom, o ponto é: Eu realmente tenho problemas para falar sobre assuntos técnicos. É um saco. Já é difícil o suficiente falar sobre Software Livre, Comunidades, Feminismo e Mulheres nesse universo tão grande quanto a tecnologia. Mas falar sobre aquilo que desenvolvo diariamente — it means — minha carreira, é algo que chega dói. É muita Síndrome do Impostor a ser tratada para um dia chegar a conclusão pública de que sou boa no que eu faço — mesmo que a vida já tenha dado um zilhão de sinais de que sim.

Eu confesso que já fazia um tempo que me sentia sim incomodada com isso. Eu quero mesmo ser a programadora que só fala sobre empoderamento? Que só fala sobre os problemas? Cadê a Valéria programadora que trabalha com API’s, que lida com clientes, que resolve arquitetura e que sabe liderar o bagulho? Estão ai perguntas que — espero mesmo — conseguir não apenas responder, mas demonstrar em breve.

Mas tem uma coisa muito mais intríseca em mim do que a minha preocupação com essa mulher profissional que de vez em quando aparece nos eventos. Essa mulher, que vez ou outra diz não pra um evento, diz porque percebe que não vai poder ser sutil — vai precisar falar do que sabe — e vai precisar mostrar o código — Mas sabe aquela coisa de terapeuta? Meu código não tá pronto pra sair.


Eu fiquei me perguntando essa semana que tipo de impacto eu gostaria de causar com o que eu faço. Eu realmente sou dessas pessoas que querem mudar o mundo, sabe? Com 12 anos me perguntaram o que eu queria que acontecesse quando eu morresse. Eu só consegui dizer que queria ter marcado a história.

Sonhos ambiciosos pra cá, introspecção e postergação pra lá, a vida mudou muito desde os 12 anos. Mas esse desejo, criado por uma empatia doentia, moldou muito do que sempre tentei fazer na minha carreira.

Ser dev nunca foi suficiente pra mim (até por isso eu tentei não ser). Minha carreira só fez sentido quando, depois de uma sessão de coaching com um ex-namorado, ele me perguntou o que eu queria fazer da vida, e eu disse que queria mudar a vida das pessoas.


Eu nunca quis ser a melhor programadora do mundo, nunca quis ser a palestrante que vai fazer living code, nunca quis estar no topo do github. Mas ele me ensinou um caminho que manteve minha sanidade por todos esses anos: eu preciso entender que o meu trabalho IMPACTA veementemente a vida de outras pessoas. Isso me vicia.

Hoje eu trabalho em um time de API para uma empresa americana, chamada Age of Learning. Eles são pioneiros no ensino gameficado dos USA, com uma plataforma chamada abcmouse.com. Essa plataforma é usada por 8 em cada 10 alunos do ensino básico. E agora ela é utilizada na China também, para crianças aprenderem inglês. E também no Japão. E na Coréia. E sei lá mais onde.

As vezes o trabalho fica bem difícil. As vezes dá uma puta vontade de desistir de tudo. Ai eu lembro do objetivo do final da vida. E é como se eu conseguisse enxergar uma criancinha chinesa aprendendo inglês pela primeira vez! Quão incrível essa experiência vai ser pro resto da vida dessa pessoinha? Isso faz valer a pena, sabe? Me mostra que eu não preciso ser a melhor das melhores. Eu preciso ser muito boa sim. Não pra comunidade, não pros meus empregadores. Eu preciso ser muito boa por aquela chinesa. Ela precisa de mim pra realizar um monte de sonhos que ela ainda nem sabe que tem. E por ela vale a pena.


Por ela vale a pena não apenas minhas 8h/dia. Por ela vale a pena dar a cara à tapa. Vale a pena construir relações mais saudáveis.

Representatividade nem sempre vem já pronto. Como militante, as vezes é preciso construir. É preciso encarar lugares nem sempre saudáveis, é preciso encarar a opressão cara a cara e gritar alto.

Não é apenas ter mulheres presentes. É sobre ter mulheres que irão sim erguer a voz e reclamar ao menor sinal de gaslighting, de mansplaining e relacionados. Tem que vir de nós.

Tem que ser por mim.

Por mim, por elas.

Disclaimer: Esse texto está nos rascunhos e aberto no meu browser há três semanas. Puta coisa difícil de escrever, eu heim.

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