EU TRABALHO DE CHINELO (E SOFRO PRECONCEITO POR ISSO)

E, não, não é home office.

Você já deve ter percebido que a melhor hora do seu dia (ou pelo menos uma das melhores) é quando você chega em casa, se esparrama no sofá e tira os sapatos. Esse momento é absurdamente incrível! Mas será que essa sensação é boa ou é a experiência de usar sapato o dia inteiro que é uma droga?

Eu sei a resposta. Porque eu trabalho de chinelo. O que eu posso dizer é que me deixa mais à vontade, melhora meu rendimento, é bom, é confortável. Funciona pra mim. Mas não pense que foi fácil ganhar esse direito. Foi uma p. conquista. E todos os dias eu sofro as consequências dessa decisão. Sabe por quê?

Altas. Ou, como costuma dizer minha filha: “Papai, pausa a brincadeira pra eu falar uma coisa!”. Vou comparar o preconceito que eu sofro com o que negros, mulheres e gays sofrem. Mas eu sei QUE NÃO É NEM UMA FAGULHA DO QUE ELES VIVEM TODOS OS DIAS, tá bom?

Então, voltando ao texto…

…Sabe por quê? Porque eu sofro preconceito. Eu trabalho de chinelo e sofro preconceito por isso. As pessoas me olham estranho no elevador. Eu entro, elas olham para os meus pés e, depois, para o meu rosto. Quase me perguntando, “sério, chinelo?”. Talvez, em menor proporção, como fazem com uma mulher que está usando uma roupa que alguém “resolveu” achar inapropriada. Ou o que um negro sinta ao entrar em um elevador social. E, cara, se já incomoda ser olhado assim por causa do chinelo…

Outro dia eu fui numa exposição no Congresso Nacional, aqui em Brasília. Quer dizer, tentei ir. Fui barrado na porta. Não de bermuda, regata e chinelo. De calça social, camisa de botão e chinelo.

- Desculpa, você não pode entrar assim.

- Assim, como? — perguntei, achando que pudesse ser a cor da camisa que eu estava, vermelha. Sei lá…

- De chinelo — o segurança falou.

- Por que não pode chinelo?

- É o regulamento da casa.

Questionei o motivo de tal regra, e recebi a seguinte resposta:

- É falta de respeito, chinelo, eles dizem.

O que mais eu podia fazer? Pedi mil desculpas. Eu juro que eu nunca imaginei que usar chinelo no Congresso seria desrespeito. Pra mim, falta de respeito seria deputado e senador receber propina da JBS ou fazer acordos escusos com outros partidos. Mas, não, ele me explicou que isso era permitido ali. Corriqueiro até. Chinelo é que não era.

Não é só lá. Uma vez, eu estava indo para o trabalho e um amigo perguntou: “De chinelo? Não é um pouco de falta de respeito pelo seu trabalho?”. Pedi desculpas, errei de novo. Eu pensava que falta de respeito no trabalho era fazer corpo mole, ficar enrolando… esse tipo de coisa.

Mas, enfim, eu sou um incorrigível. E, volta e meia, saio de casa para trabalhar de chinelos. Levo um sapato na mochila, para uma eventual reunião, um almoço específico, enfim… eu também não acho que chinelos se encaixam perfeitamente em qualquer ocasião.

Pensando bem, talvez eu nem precisasse disso, trabalhar de chinelo. Talvez seja uma rebeldia tardia ou só um símbolo da minha resistência. Mas, no meu atual emprego, eu resolvi assumir de cara. Logo na minha entrevista de emprego fui de calça social, camisa de botão e chinelo. A conversa aconteceu naturalmente e, em momento algum, o traje dos meu pés foi a pauta (coisa rara quando você trabalha de chinelo). E, sim, me contrataram. Talvez a proposta salarial nem tenha sido a que eu almejava. Mas eu disse sim, sem pensar. Tem coisa melhor do que trabalhar com gente assim? Que contrata você pelo seu currículo, não por sua aparência, pela cor da sua pele ou, no meu caso, pelo que você usa nos pés? É a cabeça que conta (pelo menos deveria ser). Porque, como o Criolo, o músico, falou outro dia:

“O Brasil é o país que exige que os currículos venham com foto”.

Por que será, né?

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