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Meus cabelos me rondavam, vermelhos como labaredas e pontiagudos como facas. Arma essa que escondia esperando algum infortúnio. Ele viera atrás de mim, buscara informações? Quiçá seria um golpe e terminaria tudo. Mas não agora. Outra coisa me convidara e eu aceitei. Só desta vez.

O céu sussurrava no meu rosto, mexia nos longos penteados e me abraçava. A lua estava grande – mas assumo que esperava mais -, as estrelinhas dançavam muito devagar… Eu gostaria de mais agilidade e velocidade, que tudo girasse loucamente e descesse para me buscar, porém coube um momento e abaixei a cabeça. Aceitei que coisas como essas aconteciam apenas em contos de fadas, que o céu era o mesmo para todos os humanos do mundo. Contudo, queria olhá-lo mais algumas vezes, esperar que respondesse meus sentimentos, minha clara felicidade por estar ali. Cheguei longe e, sinto dizer, graças aos meus pequenos companheiros. Decidia ficar só quando pudesse, mas aquele homem atrás de mim me incomodava.

Mais uma vez a noite me decepcionou: não fora ela, de novo, quem me impressionara; diante das belas luzes, das estrelas cadentes e do inexplorado escuro, coube-me apenas o sentimento comum e de indiferença. No mais, aguardava que algum dia ela fosse sensata comigo, nunca se sabe quanto tempo temos, o que ele nos trará ou quando nos apunhalará. Portanto, sentia-me mais humana por acreditar nele, por saber que o mesmo contava os segundos para tirar meu último suspiro e me levar ao escuro inexplorado. “Não, não, não…”, pensei, balançando a cabeça, “rebaixar-me a essa morbidez? Não, claramente não. Eu dominaria o tempo. Este seria meu súdito”.


Ruiva, dos olhos lapidados, olhou-me, sentada, de cima da pedra. Era a noite mais brilhante que havia visto, límpida, carregada de estrelas e uma lua cheia incandescente. Mesmo por dentro da floresta o enorme plano respirava e, cheio de harmonia, engolia-me. Ela subira aquela toca para ver melhor, creio eu, tentando tocar os pontinhos, ignorando completamente as enormes árvores. Seu corpo me ignorou, não olhava mais nem dizia algo, apenas focava naquilo que lhe era mais belo. O céu caberia naquela cena, dominaria aquela mulher e a levaria dali antes que eu pudesse dar a ela uma breve visita. Fiquei abaixo da toca; eu já havia visto tantos negros planos, por que aquele a chamaria atenção?

Tirei meus olhos dela e os virei para cima. Trocava olhares para os lados, girava meu corpo e tentava entender o que a admirava tanto, o que a trouxera até ali naquele simples momento. Respirei fundo e olhei novamente, mas, dessa vez, foquei minha visão no céu. O som da floresta se apagou e me deparava com algo que queria ter para mim. O conjunto de luzes me preenchia e me trazia inveja por tanto sentimento jorrado de uma vez sobre meu corpo, conquistando-me pouco a pouco, pondo-me em alguma espécie de labirinto do qual deveria sair.

Qualquer espécie de homem ou ser, qualquer cenário infortúnio de batalha e morte seriam dominados. Naquele momento descobri a elite do mundo, o domínio sobre tudo. Minha inveja sumiu. Apenas observava como as árvores tentavam tocá-lo e quase soltei uma risada. Vasto demais para ser pego, sensato demais para se expressar brevemente e reluzente a ponto de engolir a alma. Descobri o maior tesouro do mundo. Este não conseguiria capturar. Assenti.

_O que há demais no céu? – perguntou-me.

Na verdade, o que haveria? Seria difícil e incompreensível de minha parte responder a essa pergunta. O que realmente há?

_Talvez seja o escuro – respondi.

_E por que ele seria encantador?

_Talvez… – parei.

“Inexplorado”, pensei, “gritante, lindo e enorme”, mas nada a mais me veio em mente. Sentia um desconforto por não saber como responder a uma pergunta tão simples.

_É escuro demais, atrapalha a minha visão – falou.

_Atrapalha?

_Sim. Se realmente quisesse ver, gostaria de vê-lo por inteiro.

Eu poderia dizer algo como “ele é tudo”, “é o inteiro como um todo”, mas me calei. Sua fala não me parecia irônica.

_E se arrependeria se pudesse mudar tudo isso? – disse.

_Talvez…

Meus lábios produziram uma pequena curvatura de sorriso. Um gigantesco “Talvez”. Maiúsculo, como lhe era permitido. Quem sabe ele fosse isso tudo.

_Não lhe corrói tanta incapacidade? – disse-me.

_E por quê?

Ela prosseguiu olhando para frente, de costas pra mim, sentada naquela gruta, alguns metros acima:

_O céu enfrenta o seu corpo. Você sempre perde.

Olhei para cima novamente. Tentava desmistificar os brilhos:

_Minhas vontades são inerentes à minha capacidade – soltei, com algum aspecto de peito cheio, mas com tanta formalidade mais parecia um velho ranzinza.

Virei-me para o chão e comecei a me mover. A ruiva continuou parada:

_Há muito barulho.

Repus meus olhos nela. Se lhe era tudo um “Talvez”, se apenas lhe coubera a insatisfação e a tentativa de desmistificar, por que prosseguia lutando contra? Estava tudo tão silencioso. Os barulhos na floresta eram mínimos, no máximo ouviria as batidas das árvores com o ar.

_Não percebe? Elas estão tentando gritar – levantou o braço fino em direção ao céu – mas suas vozes já não chegam até você – virou para a minha direção.

_São estrelas – gaguejei. Vamos. Eles nos aguardam no acampamento.

Virei rapidamente e comecei a andar com passos desalinhados. Alguns segundos depois parei novamente e encarei a negritude acima.

_Estava te procurando – soltou uma voz atrás de mim. Vamos logo, a comida vai esfriar e Guill já vai apagar a fogueira.

_Procurava-me sentado? – perguntei de forma irônica – Ainda é cedo, não?

_Você sabe como ele tem medo da noite, o quanto antes dormirmos melhor.

Levantou-se e deu umas batidas no cabo da minha espada, depois, segurando-a com força, direcionou os olhos contra os meus.

_Acredito que não posso deixar a garota para trás – soltei.

_Deixe-a. Ela sabe o caminho.

Foi andando na minha frente. Empinei o nariz e o segui por entre as matas.


Quando o Castanho, como assim o chamavam, se desaproximou de mim, vi e confirmei seu estado de desespero. Ele não entendia onde estava, nem sabia quando voltaria para casa. Suspirei, retirando todo o ar do corpo. Éramos eu e as pedras agora. Estas duras demais e frias. Lisas e ásperas. Guardavam consigo uma grande história do passado do mundo e seguiam o horizonte ao meu redor, engolindo minha visão. Cheias de musgos, atrelando-se às raízes das árvores e unindo-se com a terra. Lisas e ásperas.

Menti para ele. Admito. Não sei o que é viver do céu, mas era perceptível como o garoto estava confuso. Apenas dediquei algum tempo para fazê-lo pensar.

Arriscamos muito para chegarmos até aqui e, seja como for, espero que a poeira me leve e me deixe sentir o que é viver de verdade. E que assim seja com ele.

_Ei! – um grito pelas minhas costas.

Posicionei-me para trás:

_Guill? – desesperança.

_Vamos! Quanto mais cedo dormirmos, mais cedo acordaremos.

Parei um instante:

_Miúdo, qual o seu maior medo?

Parou perante meus olhos:

_Como assim?

_Ora, seu maior medo, garoto.

_Medo? Para que isso agora?

_Curiosidade – desesperança.

Consegui ver pelo luar o reflexo do seu rosto se abrindo para mim.

_Eu não tenho medos – fechou o rosto.

Expirei forte:

_Todos temos. Diga-me.

Não piscava, quiçá uma sincera resposta poderia dar.

_Vamos. Não temos tempo, garota.

Uma risadinha saiu de mim. Ele tremia. O maior medo de um homem. Estava disposta a descobrir. Talvez algum passado relevante? Mulheres? Apostas não cumpridas? A honra, claro… A maioria dos homens são feitos de honra. Desci da gruta e adiantei o passo até a sua direção. Enquanto andávamos, comecei:

_Ei, Miúdo, vamos, me diga! Não faça essa cara de homem forte.

Parou um tempo. Olhou até mim:

_Eu não tenho medo algum.

Ouvi-o soletrando a frase.

_Não se preocupe. Eu te conto o meu. Vamos, me diga.

Continuou caminho me ignorando. Enquanto isso, eu fazia a suposição de milhares de coisas que poderiam vir a minha cabeça, como brigas perdidas e até burrices cometidas. Foi quando ele parou novamente:

_E por que desejaria tanto saber dos meus medos? – perguntou-me.

_Ah, as pessoas simplesmente os contam. Talvez sejam alguma espécie de presságio ou por se sentirem seguras por se abrirem – menti.

_E se não quiserem se abrir?

_Bem… O medo vem até você – menti de novo. Mas não ligue, são coisas que ouvimos por aí.

Calou-se e se movimentou um pouco à frente, como se me chamasse para irmos embora.

_Pare de ser tão melancólico, Guill, medos são para serem contados. Rimos deles.

_Prefiro não me abrir – retrucou.

_Pessoas que não se abrem não vivem de verdade; se escondem dentro dos próprios corpos e se perdem completamente.

_Meu medo não valerá de nada aqui – aquietou-se. Não viemos aqui para contar sobre medos, viemos para cumprirmos nossa missão, quer você queira ou não – virou-se e olhou para mim. Não espere muito dos meus medos, eles assustam todo mundo todos os dias.

Senti minha pele esfriar, fui arrepiando e me calei completamente. Suas palavras não me assustavam, não acredito em histórias quaisquer, gosto de coisas convincentes. Mas senti algum remorso em continuar atormentando-o, um instinto talvez. Seguiu caminho e fui atrás dele, um pouco mais distante. Não entendia o porquê, mas minha mão não parava de segurar a adaga, meus olhos não se descolavam daquele garoto e meus cabelos entravam em cena. Cabelos-labareda, “maldições dos Deuses”, pensei, viver sendo o inferno no mundo. Ele me lembrou porque eu existia.