A Ansiedade e Sua Função Acadêmica

A ansiedade é um vício da percepção. Não figura simplesmente entre a gama de emoções díspares que nos foram dadas experimentar: é a transposição neurótica da afeição para afecção. Discuto o fenômeno e sua função acadêmica.

Imaginem o mundo posto a limpo, a infinidade combinatória dos elementos que existem presentes em um mesmo ponto do tempo e do espaço; o Aleph de Jorge Luis Borges. Pois bem; por que tal imaginação nos oprime tanto? Por que a ideia do infinito — e também do indefinido — nos angustia? O Aleph existe para ser esquecido; por quê? Acredito que por um vício da percepção, que nos obriga constantemente a reduzir o mundo aos quadrantes da previsibilidade para conter a imperiosa sensação da ansiedade. Não discuto aqui a ansiedade em suas possíveis dimensões patológicas, relacionadas a transtornos que não tenho e que não sei nada sobre. Discuto a ansiedade como uma sensação insistente, materialmente condicionada e mobilizadora de afeições, em particular no ambiente acadêmico. Observo ao meu redor os meus colegas de universidade e amigos e percebo que estamos, quase todos, presos em uma espiral de ansiedade que impede a ação e, entre várias ações, a escrita.

A ansiedade, em particular a de tipo intelectual, se desenvolve a partir da expansão desmedida da ideia de ponto cego. A consciência reconhece sua incapacidade de conter toda a informação existente no mundo — acúmulo que, por causa de um vício de percepção, significaria correção — e, a partir daí, torna-se vulnerável à ideia obsessiva de que o erro está sempre a espreita. Aquilo que nós ignoramos, portanto, torna-se aquilo que potencialmente nos permitiria ver com clareza total a realidade e prever todos os resultados possíveis a partir das variáveis em mãos. É evidente, no entanto, que a correção não nasce do acúmulo obsessivo de dados; nasce do desenvolvimento consequente de uma cadeia de pensamentos que é fundamentada necessariamente em uma crença. A correção é, portanto, relativa às bases do seu pensamento: estou incorreto quando desenvolvo, a partir dos meus fundamentos, uma conclusão que não se segue.

El sueño de la razón produce monstruos (1799), Francisco de Goya

Mas o vício persiste, e não podemos assim nos confrontar com o infinito porque acreditamos que deveríamos contê-lo e que nossa incapacidade de contê-lo é a chave do nosso sofrimento. Em menor escala, é a angústia que acomete o estudante universitário: a biblioteca e seus milhares de livros não causam prazer, mas ansiedade, pois sabemos que não haverá tempo hábil para absorver todas as informações; não há tempo hábil, portanto, para acertar nosso pensamento. Essa angústia é alimentada por uma demanda econômica de produção que, por sua vez, atende a critérios específicos de formato. Em teoria, esses limites que a produção acadêmica impõe resolveriam o problema da ansiedade, por conter a torrente de informações em uma barragem adequadamente segura; só que a ansiedade não se resolve pelo agrilhoamento, pois ainda está presente aí a ideia da possibilidade de conter a totalidade, mesmo quando a totalidade é relativa. Em outras palavras, a academia, ao invés de ajudar na superação da ansiedade pela aceitação do infinito, intensifica a ansiedade pela redução do infinito.

(Estou utilizando a palavra infinito aqui com folga. Os elementos do mundo não são estritamente infinitos, mas, por escaparem sempre da percepção humana em sua totalidade, podem ser chamados como tal para a argumentação desse texto. Se fossemos capazes de conter x elementos, mas no mundo existissem x + 1 elementos, eu me sentiria capaz de chamar — de novo, com folga — esse número de infinito, mesmo ele evidentemente sendo apenas indefinido)

Se chamo a ansiedade de vício, é por acreditar que ela possibilita uma forma específica de prazer — mesmo que seja o prazer da covardia. Apesar desse uso, não posiciono o problema da ansiedade apenas no campo do indivíduo, o que me obrigaria a concluir o texto com uma sucessão de platitudes de auto-ajuda sobre a importância de perseverar, de não desistir dos seus sonhos etc. Como todo vício, a ansiedade tem sustentação em certas estruturas sociais e instituições. A universidade, por exemplo, é uma instituição que depende economicamente da ansiedade como motor de produção. A escrita de um artigo ocorre não a partir de um lugar de prazer, mas de pavor; o pavor nos mantém previsíveis; a previsibilidade é um valor — a ansiedade torna em impostores todos os universitários.

(Sobre essa última frase, um comentário breve. Na década de 70, alguns psicólogos propuseram a existência da síndrome do impostor, que ocorreria entre artistas e intelectuais ansiosos de que seus trabalhos na verdade são uma farsa; essa reportagem da BBC resume a ideia. No entanto, não pretendo aqui tecer um rosário sobre como pessoas criativas e inteligentes sofrem com a pressão do mundo contemporâneo — seria vulgar, e o vulgar não me importa. Além disso, a tal síndrome, ao se inscrever no campo da patologia, pode ser instrumentalizada para a manutenção do auto-engano e não importa aos propósitos desse texto)

O que resta, então, a fazer? Viver, como sempre. Não posso dizer em palavras breves qualquer fórmula que resolva o problema da ansiedade. As relações econômicas continuarão. O vício da percepção continuará. A autorreflexividade é, como costuma ocorrer nas minhas reflexões, a resposta mais prática e fundamental; a investigação do mundo é outra resposta possível. Acredito que a consciência é capaz de exercer algum controle, mesmo que precário, sobre as energias da ansiedade; acredito também, com Oswald de Andrade, que a alegria é a prova dos nove, e que não podemos deixá-la ser sufocada pela obsessão neurótica. É preciso coragem. Mas tudo isso que disse segue em direção ao vago e ao abstrato. Talvez o melhor seja não pensar muito sobre essas coisas. Retirada a ansiedade como um problema, podemos seguir às questões que realmente nos mobilizam, que realmente nos fazem tremer.

(Talvez o leitor creia que eu terminei meu texto com a sucessão de platitudes que prometi não utilizar; o que tenho a responder é que difiro da auto-ajuda por propor tudo com uma saudável descrença de que qualquer coisa funcione. Em outras palavras: se não sou negativo, tampouco sou positivo)

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