O Mundo em Pesadelo

A. Gonçalves
Aug 8, 2017 · 6 min read

Com o que sonhavam os alemães depois da ascensão do nazismo? Charlotte Beradt, uma pesquisadora judia, anotou os sonhos de trezentos membros da sociedade alemã entre os anos de 1933 e 1939; a Segunda Guerra levou-a ao exílio e seu trabalho só foi publicado em 1966. Dividido em 11 capítulos, cada um descrevendo e analisando sonhos com características em comum, Sonhos no Terceiro Reich propõe que a vida onírica do sujeito não está apenas associada a episódios privados, mas que ela está também associada à vida política de uma nação — no caso, uma nação sob a dominação totalitária.

A própria expressão “uma nação sob a dominação totalitária”, no entanto, esconde um dos aspectos mais interessantes do trabalho de Beradt: a população alemã não-judia não estava apenas sob a dominação, ela era partícipe da dominação, de alguma forma ou de outra; é isso que muitos dos sonhos dão a ver. Essa participação, no entanto, não está restrita à presença nas fileiras nazistas: muitos se silenciaram, abdicaram de sua liberdade por medo e se conformaram. Apesar disso, a questão aqui não é acusar todo um povo de iniquidade ou covardia — o que seria uma injustiça — , mas reconhecer como a estrutura totalitária se incorpora ao sujeito e se manifesta nos sonhos.

A maioria dos sonhos coligidos no livro pode ser descrita como “fantasias de participação”. Mesmo aqueles que se opunham ao governo — a maioria deles, silenciosamente — sonhavam com situações em que eram levados à participar do regime nazista, ou pelo medo, ou pela bajulação e pelo desejo de poder. Os sonhos, no entanto, não expressam claramente o conteúdo do inconsciente, em uma escrita imediata e facilmente legível: a lógica dos sonhos é semelhante à lógica literária na medida em que as duas são linguagens conotativas. Uma mulher que sonha, por exemplo, com seduzir Hitler não é, necessariamente, uma partidária do nazismo apaixonada pelo Führer; o sonho, na verdade, revela algo mais profundo, a saber, a relação íntima entre o desejo (no sentido lato, mas também no sentido sexual) e as estruturas totalitárias. Maria Rita Kehl, comentando o livro na edição de julho da revista Quarto Cinco Um, disse:

Os sonhos da maior parte dos entrevistados não são movidos pela necessidade de realizar, simbolicamente, prazeres proibidos. Aqui, a função de elaboração onírica é outra: tornar representáveis para o sujeito a experiência ou a antecipação do horror — que muitos preferiam ignorar.

O Conformista (1970), dir. Bernardo Bertolucci

Existe, portanto, um “valor de prognóstico” nesses sonhos. Eles, a partir de sua lógica interna, revelam diferentes aspectos sobre a vida sob o nazismo: um homem sonha com um decreto de eliminação de paredes (p. 44); outro, com um Departamento de Instrução para a Instalação de Aparelhos de Escuta na Parede (p. 59); uma faxineira sonha que fala russo enquanto dorme para não compreender a si mesma e, assim, não se incriminar perante o Estado (p. 70); um médico judeu sonha ser o único homem capaz de curar Hitler (p. 142). Apenas um capítulo é reservado para os sonhos de resistência declarada (sonhados, em sua maioria, por pessoas de movimentos antinazistas ou atuantes) e o último capítulo descreve os sonhos dos judeus. Em comum, a maioria dos sonhos antecipa ou retoma motivos literários: máquinas de vigilância aparecem antes da publicação de 1984, de George Orwell; uma linha de Kafka é reproduzida quase ipsis litteris, sem que o sonhador tenha a lido; um homem cuja falta de alegria é um crime contra o Estado parece saído de uma obra de Brecht.

Além de se assemelharem a textos literários, os sonhos também anteciparam, de alguma forma, os desenvolvimentos do Terceiro Reich: aquilo que se apresentava como absurdo no sono tornava-se realidade na vigília. Sobre os sonhos dos judeus, Beradt escreveu que

Se, como vimos, pessoas de todos os grupos de população conseguiram, desde o início, a partir de seus sonhos, reconhecer em seus medos os princípios e objetivos do Estado totalitário e refletir a respeito, a ponto de mais tarde termos a impressão de que esses sonhos eram profecias, os judeus, por sua vez, devido à sua sensibilidade tão aguçada pelas ameaças que sofria, desenharam com clarividência naturalista o quadro de sua situação. (p. 150)

Composição em Vermelho e Preto (1950), Aluisio Carvão

A presciência do sonho, portanto, não é uma “profecia”: ela só é possível porque as estruturas totalitárias, escancaradas na propaganda nazista, se incorporaram ao subconsciente dos alemães e se manifestaram durante o sono. Foram anos de decretos discriminatórios e de discursos antissemitas para a consolidação do nazismo no poder e para a naturalização do seu conteúdo ideológico. Não há mal inaudito: os horrores dos campos de concentração e do Holocausto já estavam prefigurados na propaganda de Goebbels, nas tropas de choque e nos discursos de Hitler. O que Sonhos no Terceiro Reich nos mostra é que os cidadãos alemães opositores ou antipáticos ao nazismo anteciparam, mesmo que subconscientemente, o acirramento das violências do regime e não conseguiram responder energicamente, paralisados pelo medo e pelo desejo de participar. Repetem-se as frases: “Não digo nenhuma palavra”, “Não dá pra fazer nada”, “Heil, Hitler”. Abdica-se da ação antinazista em nome da segurança:

Em sonho, um homem conseguiu caracterizar uma frase o que havia de não dramático e silencioso nesse transição da sugestão à autossugestão: “Digo, no sonho, a seguinte frase: Não preciso mais dizer sempre não”

Nessa forma de conto de fadas “não-preciso-mais” (quase comovente, em meio a todas as obrigações totalitárias), constata-se de novo quanto esforço se faz para ser “contra”: a liberdade como peso, a servidão como alívio. (p. 131)


No final do livro, Beradt nos deixa com um alerta, dizendo que devemos estar sempre atentos às manifestações do totalitarismo e que devemos agir “(…) antes que a ‘vida sem parede’ tenha início” (p. 160). Extrapolando as palavras da autora, devemos também ser capazes de reconhecer a qualidade totalitária das democracias capitalistas, em particular no Brasil. Não se trata de unir, em um torniquete ideológico, a Alemanha dos anos 30 e o Brasil de 2017, dizendo que entre um e outro não existem diferenças. Existem diferenças claras. No entanto, a violência que se manifesta no Brasil é, talvez, ainda mais insidiosa do que a violência nazista, na medida em que a segunda se alardeava, enquanto a primeira se esconde; além disso, ela não é menos racializada, considerando que, dentre 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Por isso, apesar do discurso oficial, não podemos ignorar que a polícia militar é um instrumento totalitário e que a justiça brasileira mantém 221 mil pessoas presas sem julgamento; o funcionamento dessas duas instituições já é suficiente para que não respiremos aliviados, imaginando que, por não vivermos em um Estado propriamente fascista, nós estamos bem. Se nos preocupamos com o totalitarismo, devemos nos preocupar também com a democracia capitalista, porque, em algumas situações, o efeito das duas é o mesmo.

No fim, a faca na caveira não é menos digna de assombro do que a suástica; quando nos lembramos que no Brasil não se sabe “(…) quantas pessoas morrem nas mãos das policias, seja em serviço ou fora de serviço”, ou quando nos lembramos que 9 em cada 10 mortos pela polícia militar no Rio de Janeiro são negros ou pardos (e que em pouco mais de um ano morreram 1227 pessoas nas mãos da mesma PM), ou quando nos lembramos que o julgamento do habeas corpus para Rafael Braga, preso nas manifestações de 2013 por portar Pinho Sol, foi adiado e que o pedido provavelmente será negado, quando nos lembramos desses fatos e de tantos outros é que nós reconhecemos o que há em comum entre o totalitarismo e isso que nós chamamos por aqui de democracia. Mapear os nossos pesadelos ainda é um trabalho por vir.

Rafael Braga Vieira ao lado de uma pichação.

A. Gonçalves

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você cava milhas adentro e sai no poço onde cava

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