Observação do Degredo

Sonhei com monstruosidades. Estavam deitadas em uma planície, próximas de um batalhão de cavalos caídos e, à distância, pareciam linhas traçadas com descuido e rentes ao chão. De perto, os ossos sob suas peles despontavam em formas agudas, e podia-se ouvir que guinchavam baixo, o único som da terra. Mortas de fome, roíam as cavalgaduras dos cavalos mortos, raspavam os dentes na terra, rasgavam pedaços de suas roupas e comiam. Os dentes se projetavam para fora dos buracos que acreditei serem suas bocas, mas qualquer aproximação anatômica dessas criaturas com os humanos é imprecisa. Eram finas como vermes e sem cor; somente suas mãos pareciam com as nossas, tocando tudo que podiam com avidez e cuidado, usando o movimento de pinça do indicador com o polegar. Não se moviam, mas tremiam levemente no mesmo lugar. De resto, era impossível compreender suas formas; a incompreensão, menos que o horror, quase me fez desmaiar.

Tirei da minha bolsa alguns farelos de pão e joguei às criaturas; elas se esticaram o bastante para poder comer os meus restos. Não acredito que compreendessem o mundo, que dirá um ato de caridade, mas me pareceram gratas. Elas estavam dispostas em um semicírculo, voltadas para mim, e com um riso de escárnio pensei que estivessem em um conselho, tratando de assuntos sérios, ou que me venerassem como quem venera um deus. Reprimi meu pensamento por considerá-lo perverso: “Esses vermes — foi a palavra que usei, sem desejar ofendê-las — estão claramente sofrendo; devo tentar ajudá-los ao invés de me deixar rir”. Nesse momento, senti com um arrepio já ter estado ali, na posição de réu; receoso, aproximei minha mão do corpo vago de um desses vermes.

Three Studies for a Curicifixion (1962), Francis Bacon

Não posso remontar a sensação da sua pele; não existem sensações semelhantes ou suficientes. Bastou um toque breve, com a ponta dos dedos, para que eu vomitasse — não de nojo, mas de espanto — no solo vermelho. Me senti morto e condenado à dor do inferno, e senti também que eu era cada uma dessas criaturas. Ao meu toque, o verme moveu uma de suas mãos para frente, em minha direção, tateando. Buscava o meu corpo, queria também me tocar. Refleti sobre a moralidade de impor-lhe a minha mão humana sem me entregar à sua mão de verme; me parecia ultrajante aceitar ou negar aquele toque. Preso ao impasse, fiquei parado naquele lugar sem tempo. Quando vi os dedos longos do verme se aproximarem, quase tocando a ponta dos meus pés, senti outro toque nas minhas costas e acordei.

Disse que sonhei com isso, mas não acredito verdadeiramente que tenha sido um sonho, nem mesmo um pesadelo. Visitei algum lugar cuja geografia é desconhecida e hostil, e não pretendo retornar. Passei duas ou três noites sem dormir, mas o esquecimento das sensações daquela visita já começa a se abater sobre mim. Atento também que passei as últimas semanas olhando para trás, buscando espreitar a criatura cujo toque me despertou. Temo encontrá-la um dia; temo, um dia, me encontrar no lugar do verme.

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