Sapatos grandes

Era uma tarde de terça-feira, a minha enxaqueca cutucava-me feito o demônio e sua corja dos infernos. As vozes eram altas em minha mente e os números me causavam vertigens sem precedentes. Quase que sem fôlego saio do escritório, me assusto com a senhora que trabalha na recepção, desvio do faxineiro terceirizado e enfim quando consigo colocar os pés na rua, quase que fiquei cego com tamanha exposição solar.

Entrei correndo no estacionamento ao lado, com as mãos frias e suando acionei a partida do carro, liguei o ar condicionado em seu poder máximo e saí dirigindo como se o apocalipse Zumbi estivesse acontecendo.

Automaticamente o meu celular conectou no rádio do carro e a volumetria de mensagens era assustadora: "Ei sumido?!", "Oi Bauzo, gostaria de um tempo seu no final de semana para lhe apresentar o nosso novo empreendimento…", "E aí Bauzo, você vem visitar a mãe no sábado? Qual é, desse jeito você vai ficar rico rs".

Como se eu soubesse o que estivesse fazendo, desconectei o bluetooth do carro e segundos após o meu bolso pulsava com as ligações que eu desprezaria.

Quase em frangalhos, estaciono o carro em uma Conveniência e adentro ao local meio sem saber o motivo e entro na fila do Caixa Eletrônico sem a menor racionalidade. Era terça-feira a tarde, a minha vida estava um caos, eu estava privado de noites de sono, meu peso era exponencial, meus cabelos estavam indo embora sem que eu pudesse indagá-los e a frustração do existir era maior que toda a dor do mundo.

O homem em minha frente na fila esbravejava e demonstrava tremendo incômodo com a demora na fila. Um homem dentro da Conveniência abriu uma lata de refrigerante e o barulho do alumínio e do anel da lata quase me ensurdeceu.

Volto a minha atenção para um dos terminais do Caixa Eletrônico, vi uma moça negra, não mais que 27 anos, vestia um vestido escuro e longo, cabelo amarrado, sapatos sociais nitidamente maiores que o que seus pés realmente exigiam.

O roteiro seguido por ela era “coloque o cartão”, “digite sua senha de 4 dígitos”, “digite o valor do saque”, “80,00", “digite a combinação de letras”,”Ca Fa Xi”, “Xi Ca Fa”, “Bu Ca Xi”, “erro”, “erro” e “erro”. Cada teclar funcionava como uma estocada ao homem que estava na minha frente na fila e até mesmo outros começavam a expressar timidamente a insatisfação. A moça negra tentava, tentava e tentava novamente. As letras misturavam em minha mente e visão e fui arremetido em minha infância e lembrei-me de como eu lia magistralmente qualquer texto que me dessem para ler. Orgulho dos pais e professores, um completo privilegiado sem causa alguma.

As letras dançavam por minha mente e entravam na tela do Caixa Eletrônico e um filme trágico se passava em minha mente. Vergonhosamente e intimidada ela saiu de cena e se retirou da Conveniência e saiu caminhando sob um sol escaldante e sumiu no horizonte do asfalto.

A comemoração dos demais da fila foi instantânea e todos sentiram um alívio tremendo. Cada qual com seu saque e contas pagas e que em seguida entrariam em seus confortáveis carros com ar-condicionado, inclusive eu mesmo.

Vi minha conta com um saldo que provavelmente aquela moça talvez nunca virá em sua vida toda, não que seja muito, mas o abismo é muito maior que pensamos.

R$ 80,00 para passar essa vergonha toda? A maior pobreza é não saber ler para obter os R$ 80,00 que com certeza serão importantes.

No final das contas, ter dinheiro muitas vezes significa ser pobre de espírito, não sentir empatia do próximo, bater panela para cortar R$80,00 de quem a vida nunca sorriu, não perceber o privilégio que tem e ainda cobrar de quem não teve nada, nem o direito de ler, apenas de ganhar R$80,00 sem ter o direito de dignamente receber tal ajuda.

Entrei no carro e me dirigi novamente ao escritório, sentindo vergonha de mim e das minhas reclamações. Como se a minha educação formal fosse uma maldição e injusta.

Os meus sapatos encaixam-se confortavelmente ao tamanho do meu pé…infelizmente nem todos podem ter esse privilégio.

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