Por que eu não sou mais uma “garota legal” do punk rock

Texto original por Kristy Diaz: https://trackseven.net/2017/01/17/why-im-no-longer-a-punk-rock-cool-girl/

Estou em um show punk na cidade em que vivo e estou conversando com uma das bandas. Eles são meus amigos, e estamos falando sobre a entrevista que fizemos alguns meses atrás. O promoter, que também está em uma das bandas que tocarão, chega. Eu não o conheço, mas o reconheço.

Ele chega e pergunta quem eu sou, acusadoramente.

“Você é de Leicester?”

“Como você conhece esses caras?”

Estou nervosa e confusa e tropeçando desgraçadamente em minhas palavras. Sim, eu sou de Leicester, esses caras são meus amigos.

Ele se move para alguém atrás de mim e me diz para não me preocupar, ele não está olhando para os meus peitos, e tendo sido jogada pelo interrogatório anterior, eu digo a ele com confiança recuperada que eu sei, meus peitos não estão na minha cabeça, que era para onde ele estava olhando.

Nos 15 anos que passei indo a shows eu tive brigas, fui apalpada, tenho cicatrizes ganhadas em mosh pits, e já caí de cara em chão de madeira.

E ainda assim, isso foi o mais intimidada que me senti em um show. Um lembrete que, como mulher no punk, você precisa constantemente se defender contra desafios de espaço, propriedade, e identidade para justificar que você é legal o suficiente para estar onde você está.

“Garota legal” é um conceito inventado em um livro que nunca li (Gone Girl, de Gillian Flynn) mas se tornou familiar através de escritos feministas da cultura pop [1]. Descreve um tipo específico de mulher que parece existir para satisfazer os desejos de homens — ela compartilha de seus interesses, é atraente mas baixa-manutenção, é basicamente “um dos garotos”.

“Homens sempre dizem isso como o elogio definitivo, não dizem? Ela é uma garota legal.”

“Garotas Legais nunca ficam bravas; elas só sorriem de um jeito humilhante e amável, e deixam homens fazerem o que quiserem. Vá em frente, cague em mim, eu não me importo, eu sou a Garota Legal. Homens genuinamente acham que essa garota existe. Talvez eles estejam enganados porque tantas mulheres estão dispostas a fingir serem essa garota.”

Eu fui a versão punk rock da “garota legal” por anos.

A garota legal punk rock gosta de música de verdade. Música boa. Música decente. Ela gosta da banda de hardcore do momento que toca para 15 pessoas agora. Ela sabe todas as palavras de The Shape Of Punk To Come. Ela não escuta música pop, ou dance music, ou coisas que Outras Garotas gostam. O álbum favorito dela de Braid é o Álbum Correto. Ela só canta junto com as músicas do Panic! At The Disco ironicamente. Ela pode sair com os amigos músicos e se manter em uma conversa, mas ela não aponta as maneiras em que até o punk rock, essa gloriosa utopia que habitamos, tem a capacidade de oprimir.

E, assim como o conceito original, ela não existe.

Ela ama música. Isso é real, a ponto que isso a define. Mas ela aprendeu a natureza performativa dos fãs de punk, a linguagem que usamos para falar de bandas que somos permitidos gostar, e quais não somos. Ela sabe que gostar das bandas “erradas” fará dela menos admissível. Ela existe com uma série de limites, e edita-se de acordo com eles.

Ser uma mulher envolvida no punk em qualquer capacidade é um exercício em navegar uma constante, inconstante conjunto de hipocrisias. Muitas vezes, são as micro-agressões que afetam mais.

O medo de ser rotulada de “fangirl”, ou “poser”, ou “scene kid” é profundo; insultos bastante misóginos jogados na era MySpace em que eu cresci. Isso não me impediu de direcionar eles a outras mulheres. As mulheres de quem eu era diferente.

O machismo internalizado se manifestava de formas feias, de disfarçar minha própria feminilidade a zombar de mulheres que iam de salto a shows. O direito de identidade e querer propriedade sobre a música, desmerecendo outros como “scenesters” que não gostavam de verdade de música. Espelhando o comportamento de homens.

Considere as formas como mulheres são tratadas, contudo, e isso se torna um mecanismo de defesa lógico porém destrutivo. Armadora contra a investida das expectativas. Expectativas de que você terá os contatos certos, conheça as bandas, os promoters, os selos, mas não pode ficar de boa com seus amigos em um show sem ter seu status questionado.

Expectativas de que você usará as camisetas de banda certas. Projete em outra mulher ao invés de apontar a ironia de artigos expondo bandas de hardcore por serem estúpidos enquanto declaram que o sinal definitivo de estarem sucumbindo ao mainstream é uma mulher convencionalmente atraente usar uma camiseta da banda em uma academia [2].

Contudo, em algum ponto eu teria dito exatamente a mesma coisa. Eu teria pensado que ela era uma poser que começou a gostar de hardcore enquanto era tendência. Eu ouvi tanta merda que acreditei nela.

Não é só o hardcore. A narrativa cercando o “real emo”, enquanto muitas vezes com boas intenções e com argumentos legítimos sobre a mídia que persistentemente confunde “emo” com “música triste com guitarra”, perpetuou uma exclusividade que tem sido difícil de se livrar. Levei uma quantidade embaraçosa de tempo para reconciliar meu amor pelo gênero através de suas “ondas”, como se conhecer sua história te impedisse de curtir o presente.

Seu conhecimento sobre música será sempre posto à prova, então tenha certeza de que leu muito. A mais legal das garotas legais está sendo “ensinada” sobre música. Namoradas invisíveis e maleáveis que precisam ser ensinadas sobre as bandas certas.

Essas recomendações não-solicitadas existem em todo lugar, de discussões online a músicas inteiras. Por exemplo, em “Bukowski” do Moose Blood, a linguagem usada é unidirecional, o sujeito completamente passivo.

“Vou te introduzir a Clarity
Te ensinar as palavras de The Sound Of Settling
Fazer você assistir a High Fidelity”

https://www.youtube.com/watch?v=Le5TRhx6uso

Existem muitas letras de música assim, e vindas das minhas bandas favoritas de todos os tempos. Eu tive que voltar em “Your Favorite Weapon” do Brand New e “Everything You Ever Wanted To Know About Silence” do Glassjaw, e realmente refletir sobre algumas dessas letras.

É uma posição difícil de tomar quando a música que você ama contribui para algo que você não. Mas, para mim, ser capaz de examinar isso criticamente foi um passo enorme para sair do tipo de “garota legal”.

Isso me permitiu perceber que as outras mulheres não eram o problema. Como eu, elas também têm sua credibilidade questionada, sendo descritas como sujeitos sem voz em músicas, e sendo ditas indiretamente que a música que elas tanto amam é baseada nas pessoas que elas estão transando, ou querem transar com. Que elas estão sempre uma mixtape obscura longe de saberem qualquer coisa sobre música.

Como DJ em uma boate bem-sucedida, eu me peguei tendo que lidar com incontáveis homens me dizendo que eu não era boa no meu trabalho. Enquanto tocava para uma pista lotada, eles me perguntariam: “Por que você está tocando isto? Ninguém gosta disso.”

Toque meu pedido.

Me dê seu número.

Essa música é uma merda.

Não importava se eu estava tocando Q And Not U ou Girls Aloud. Eles nunca estariam satisfeitos. Não era Shellac, ou os Stone Roses, e eu ainda era uma mulher. Eu não poderia ganhar o nível de respeito que eu tão desesperadamente queria. Eu tinha que parar de tentar.

Ser a “garota legal” não é uma solução. É uma distração parasitária, e te arranca de todas outras coisas sobre você. Te reduz a uma coleção de discos. Altamente não-recomendado. Zero estrelas.

Está tudo bem ser chata. Esqueça a noção de legal, e esqueça a noção de legal definida por qualquer outra pessoa que não seja você. Uma das coisas mais libertadoras que desaprendi é querer a aprovação de homens, e desde quando abandonei essas limitações eu curto mais música. Eu posso me permitir não gostar de coisas que sinto que “devia” gostar. Eu abraço todo meus gostos diversos. Eu escuto infinitamente mais músicas feitas por mulheres do que eu escutava há 10 anos atrás. Estou aprendendo a parar de me comparar a outras mulheres, e de vê-las como competição.

Deixe essa merda ir. Nunca negue a si mesma a música que você curte. Cante e grite junto com toda sua força. Colabore com mulheres e outros grupos marginalizados no punk, protejam-se e apoiem-se e invista energia em criação. Nunca se desculpe por um espaço que você ocupa e não dê satisfações a ninguém. Foda tudo em shows DIY e dance música pop imprudentemente, usando saltos e glitter e jeans e camisetas apertadas. Não seja ensinada. Você sabe de tudo.

[1] https://www.theguardian.com/commentisfree/2012/sep/17/cool-girl-gone-girl 
[2] http://www.metalsucks.net/2016/06/27/todd-jones-from-nails-scene-bully/

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