Bloco de Rua

Sequência de Recomeço.

Henrique estava deitado no sofá, enrolado nas cobertas. O gato preto — recém adotado — tinha se acomodado entre suas pernas. Só este último abriu os olhos quando Helena entrou no apartamento, acendendo a luz da sala, sem nenhuma misericórdia.

- Isso já foi longe demais! — ela exclamou. — Já faz semanas que você só fica aí deitado!

Ele gemeu e tentou abafar a voz dela com o travesseiro, que foi prontamente arrancado de suas mãos pela garota.

- Você precisa voltar a viver, Henrique!

Ele abriu os olhos com dificuldade e a encarou.

- Por que você está vestida assim?

Helena abriu um sorriso, parecendo esquecer da bronca que estava dando nele.

- Eu estou de Moana!

Henrique reconhecia que ela tinha se esforçado, mas não tanto, porque com o seu longo cabelo cacheado não era preciso muito para que ela ficasse parecida com a personagem.

- De novo, por quê? — Ele se sentou no sofá, fazendo o gato pular no chão.

- Por causa do bloco. Vou encontrar o pessoal mais tarde.

- Já é carnaval? — Henrique coçou a cabeça, confuso.

Ela soltou um suspiro e começou a abrir as janelas da sala.

- É disso que eu estou falando, você ficou trancado aqui tempo demais!

É claro que ele sabia disso. Mas não era tão simples assim voltar a vida normal após passar por um exorcismo… Era o tipo de coisa que deixava sequelas. Henrique não tinha vontade de fazer nada, além de ficar deitado no sofá. Helena tinha largado o gato em seu apartamento há algumas semanas, esperançosa de que isso o motivasse — acontece que o bicho realizava a proeza de dormir mais do que ele e portanto era muito fácil de cuidar. Mas agora, estando tão sensível quanto o felino, Henrique entendia porque dormir tanto.

Seu único contato com o mundo exterior era Helena e um ex-padre de meia idade — o responsável pelo exorcismo; ele nem queria saber como Helena tinha o encontrado — que lhe ligava esporadicamente preocupado com o seu bem estar.

- Por que você vai num bloco de carnaval? — ele perguntou, desconfortável com a ideia. — É cheio de gente, cheio de sujeira…

- Ah, é legal. — Ela deu de ombros. — Dá pra se divertir, dar uns beijos…

Isso fez com que Henrique despertasse de vez.

- Acho que vou com você.

Até o gato começou a olhá-lo, como se dissesse “é sério, amigo, é essa melhor ideia que você consegue ter?”.

- O quê? Você quer ir no bloco? — Helena começou a rir. — Você não acabou de falar que é cheio de gente e não sei o quê?

- Não tinha pensado nessa parte de “dar uns beijos”.

Ele só não falou que a única pessoa que ele queria beijar era Helena. Mais provável que ele ficasse sofrendo vendo ela beijar outras pessoas, mas se ficasse em casa ele ia se torturar do mesmo jeito, só imaginando.

- Henrique, eu não acho que é uma boa ideia — ela começou, com o tom de voz doce.

- O quê? Eu beijar alguém? — Ele se fez de desentendido.

- Não, você se jogar no meio de uma multidão depois de ficar semanas isolado. Não vai ser demais pra você? — Helena indagou, preocupada.

- Não, claro que não — confirmou, com um sorriso.


Aquilo era demais para Henrique.

Nunca teria imaginado que coubessem tantas pessoas naquela rua sem saída, mas o bloco — Alto Astral Absoluto — lhe provava o contrário. Era muita gente fantasiada e coberta de glitter, embora a maior concentração estivesse em volta do palco montado ao final da rua.

Isso sem contar os não foliões, que só ele via.

- E aí, como você está? — perguntou Helena, lhe tirando do seu transe.

Eles tinham encontrado os amigos dela antes de chegarem no bloco, mas Helena se mantinha ao seu lado, preocupada.

- Eu tô bem, sério — mentiu.

Ele sentia que ia começar a hiperventilar a qualquer momento, mas não queria estragar a festa para ela.

Helena soltou um suspiro — claramente não convencida — mas entrelaçou seus dedos nos dele, indo atrás dos amigos.


Começava a anoitecer. Henrique não estava mais surtando, as latinhas de cerveja tinham o deixado sonolento e com isso ele parara de prestar atenção em todas as pessoas e não pessoas a sua volta.

No momento estava sentado na guia da rua de paralelepípedos, cansado de tanto pular. Seu humor não podia estar mais longe do tal Alto Astral que nomeava o bloco.

Não tinha beijado ninguém. Não por falta de oportunidade, só não estava afim. Helena tinha beijado três pessoas — não que ele estivesse contando! -, embora no último caso o mais correto fosse dizer “foi beijada”, já que a outra garota chegou avançando nela…

Helena abriu um sorriso ao vê-lo e agora se dirigia até ele.

- E aí? — ela perguntou, lhe dando uma cutucada nas costelas ao sentar ao seu lado. — Quer ir embora?

- Quero — respondeu, com sinceridade. — Acho que o Ebenezer está sentindo minha falta, nunca ficamos tanto tempo separados.

- Porque você tá chamando o pobre sr. Bigodes desse jeito? — ela indagou, o tom de voz indignado.

- Porque o espírito do senhor Ebenezer está preso no corpo do gato e ele me xinga toda vez que escuta isso de “sr. Bigodes”.

Era uma brincadeira, não tinha espírito nenhum no gato — que ele soubesse. Mas Helena estava séria.

- Já falou isso para o padre Marcos?

- Ex-padre — corrigiu, como o ex-padre fazia sempre questão de fazer. — E é brincadeira, Lena. Não tem espírito nenhum. No gato, pelo menos.

- Como assim “não no gato”, João Henrique?

Pronto, começou.

- Credo, já falei que foi só uma brincadeira, não precisa se irritar toda — tentou desconversar.

- Não estou irritada — ela falou, claramente irritada. — Mas não brinca com essas coisas, não gosto disso.

- Tá bom, vamos falar de outras coisas então, tipo… — Não continuou a frase, pois estava pensando em algum assunto.

- Como ficou a sua história de dar uns beijos, hein? — ela sondou, com um sorrisinho de canto.

- Hmm, não ficou — disse, um tanto constrangido.

- Sério? — ela parecia decepcionada.

Ele assentiu, olhando para os confetes e serpentinas caídos no chão, sem coragem de encará-la. Só desviou o olhar quando sentiu a mão dela sobre a sua.

- Mas você quer? Dar uns beijos?

Helena também não estava o olhando quando fez a pergunta.

- Em você?!

Ela retirou a mão rapidamente.

- Também não precisa falar desse jeito, — ela começou, magoada — eu só…

- Calma, eu só tô surpreso! — Henrique disse, apressadamente. — Faz meses que eu quero te beijar, só não achei que você quisesse também!

Helena ficou lhe encarando, intrigada. Será que tinha demonstrado entusiasmo demais?

- Por que tirar um encosto de você foi mais fácil do que isso? — ela disse, finalmente.

Henrique ainda estava rindo quando ela lhe beijou. Não foi um beijo longo, Helena logo se afastou.

- Desculpa, tem glitter na minha boca — ela riu, passando a mão nos lábios.

Ele voltou a rir e talvez tivesse continuado com esse bom humor, se algo ao fundo não tivesse chamado sua atenção: uma fantasma lhe sorria, uma das muitas que estava naquela rua — quem diria que os mortos também gostam de pular carnaval? — naquele bairro boêmio. Ela parecia jovem, embora suas roupas denunciassem que tinha morrido no ínicio dos anos 2000. Nem ficou surpresa quando percebeu que Henrique podia vê-la, apenas apontou para ele e Helena e fez um joinha com o polegar.

Esse tinha sido o presente que o exorcismo tinha lhe deixado, a capacidade de ver os mortos. E ao que parece, eles lidavam com esse negócio todo muito melhor do que ele.

- Ei! — exclamou Helena, estralando os dedos na frente do seu rosto.

- Conseguiu tirar o glitter?

Ela assentiu, sorrindo. Ele a beijou de novo.

Não ia se preocupar com o sobrenatural, pelo menos não agora.

Este texto foi escrito para o projeto Na Ponta da Caneta do Who’s Thanny. O tema de fevereiro era Bloco de Rua.