Lobo Mau?

Um cutucão fez com que ela despertasse de seu sono. A luz do sol era intensa demais para que ela conseguisse ver alguma coisa.

- Você está bem, moça? — indagou uma voz infantil.

Quando seus olhos se acostumaram com a luminosidade foi que viu a garotinha. Ela usava um casaco e capuz vermelhos e carregava uma cesta de vime.

- Tá tudo bem sim… — Olhou ao seu redor, totalmente perdida. — Eu acho.

Viu que estivera dormindo em uma clareira.

- Eu passei aqui para colher umas flores, e aí te vi. Te acordei porque você está vermelha do sol… Melhor ir dormir em algum outro lugar.

A menina então passou a colher as tais flores. Foi isso que causou o estalo em sua mente.

- Eu conheço você! — exclamou, levantando-se. — Você é a Chapeuzinho Vermelho!

A garota lhe olhou muito confusa, segurando o riso.

- Não, meu nome é Ginger.

Aquilo lhe decepcionou, pois pensou que finalmente estava começando a entender alguma coisa.

- Você não está indo visitar a sua avó então? E não parou aqui para colher as flores pra ela?

Isso assustou a menina e ela logo abandonou a atividade.

- É melhor eu ir… — disse, hesitante.

E então, Chapeuzinho começou a correr.

- Eu sabia, você é a Chapeuzinho Vermelho! — berrou, correndo atrás da menina.

- Já falei que meu nome é Ginger! — gritou ela de volta, sem parar de correr. — E eu não devo falar com estranhos!

- Sim, essa é a moral da sua história!

Acabou perdendo a menina de vista, já que obviamente ela conhecia mais aquela floresta. Bom, mas ela conhecia a história! Chapeuzinho estava indo para a casa da avó, onde encontraria o Lobo Mau disfarçado. Tinha que impedir isso!

Com o novo objetivo em mente, começou a andar, determinada a achar a casa da vó. Não poderia ser tão difícil assim…

- Pela estrada fora, eu vou tão sozinha, levar esses doces para a vovózinha… — cantarolou, enquanto seguia pela floresta.

Ouviu um estalido, mas isso era normal na floresta, não era?

- Ela mora longe e o caminho é deserto, e o lobo mau passeia aqui… AAAA!

Levou o maior susto quando um homem saiu por detrás de uma árvore.

- Acalme-se, não vou lhe fazer mal! — exclamou ele, levantando as mãos.

Foi então que ela o analisou melhor. Ele carregava uma espingarda nas costas.

- Você é o caçador!

- Eu não diria o caçador, — ele riu — mas sim, sou um caçador.

- Você é mais novo do que eu imaginava, mas… — murmurrou para si mesma. — Acho que você pode ajudar! Onde fica a casa da vovózinha?

- Vovózinha? Eu, hein… — Ele coçou a cabeça, parecendo confuso com ela também. — Se você estiver falando da Sra. Grahm, ela mora lá pra cima, seguindo ao leste.

- Ótimo, precisamos ir pra lá!

Ela começou a andar na direção que o caçador tinha apontado, mas parou quando percebeu que ele não a seguia.

- Você não vem?!

A presença do caçador era fundamental! Era ele quem cortava a barriga do lobo para liberar a vovózinha e a neta.

- Não tem nós aqui, querida. Eu preciso caçar um lobo…

- Mas é lá que o lobo está, na casa da vov… digo, sra. Grahm!

- E como você sabe disso? — ele indagou, desconfiado.

- A neta dela, Chapeuzinho, me contou — mentiu.

A mentira foi o suficiente para convencer o caçador a acompanhá-la.


A porta da casa da vovózinha estava fechada, mas, como esperado, destrancada.

- Você vai entrar na casa? Eu achei que estivessemos atrás do lobo!

O caçador tinha dificuldade em entender o plano e aquilo estava a irritando.

- O lobo está aí dentro! Agora vamos!

A casa era maior do que sempre tinha imaginado. Passaram por uma sala deserta, até que ouviram vozes ao chegarem na cozinha. A cesta que Chapeuzinho havia trazido estava em cima da mesa.

- Elas estão… Rindo? — perguntou o caçador.

Aquilo realmente era muito confuso. Seguiram para o quintal.

A vovózinha observava Chapeuzinho brincar com um… Sim, era um lobo. Um filhote, embora já fosse grandinho. Ele era muito fofinho e não parecia nada agressivo.

- Esse é o lobo?! Mas ainda é um filhote! — indignou-se o caçador.

Isso fez com que elas notassem a presença dos dois.

- Vó, essa é a moça esquisita! — apontou Chapeuzinho. — Aquela que eu te falei!

- O que vocês estão fazendo aqui?! — inquiriu a vovózinha.

- Eu… — balbuciou. — Eu achei que vocês estivessem em perigo… Por causa do lobo.

Tomou o maior susto quando a senhora pegou uma espingarda.

- Pois eu vou lhe mostrar o que é perigo, — pausou, para carregar a espingarda — se vocês não saírem daqui agora!

O caçador a pegou pelo braço e saiu arrastando-a de lá.

Nessa realidade, não existia um Lobo Mau.

Este texto foi escrito para o projeto Na Ponta da Caneta do Who’s Thanny. O tema de abril era #MaresNuncaDantesWT.