Sou um curtidor inveterado de bads

Estava em um avião sozinho e só com as músicas sincronizadas no meu celular quando me acometeu um pensamento óbvio que me seguiu toda a vida: sou propenso a amar uma melancolia.

Isso não era novidade. Não. Não mesmo, se eu considerasse tantos repeats de música, tantos momentos de filmes e séries e o quanto me fazia um bem inesperado repassar tudo e pensar em como aquilo fazia com que eu me sentisse.

Há algo de bom em estar triste, quando como a Only Happen When It Rains do Garbage. Eu só esqueço disso muito bem de quando em quando.


Na adolescência, quando eu via os colegas de classe e outros conhecidos preocupados com matinês, passeios no shopping e paqueras, eu passava a maior parte do tempo preocupado com várias coisas.

Eu gastava muito tempo pensando no que era ser bom, no que era ser justo, no que era ter uma identidade ou em cooperar com o mundo e que eu deveria estar em alguma empreitada de, de alguma forma, embelezar o mundo.

Esses pensamentos não eram casuais e rasteiros — eles funcionavam de maneira constante, cíclica, sem marcação de tempo. Funcionavam assim como era minha cabeça aos nove anos — que, em silêncio, se ocupava de fazer multiplicações e divisões de números com pelo menos na casa das dezenas e com pelo menos duas casas decimais. Isso não era algo que eu fazia, era algo que acontecia. E já que acontecia tanto assim, eu encontrava em tudo e todos que eu via as mesmas perguntas, e eu encontrava em mim uma grande ausência disso tudo.

Acho que a partir daí eu comecei a formular um grande apreço pela melancolia. Eu gostava de todas as coisas partidas. Fosse a ideia de um paraíso perdido, fossem ruínas em fotos e coisas enferrujadas e casas abandonadas do nada no meio da rua, toda vez que eu escutava uma música arrastada na tristeza, cada vez que eu cruzava o caminho com uma pessoa partida de alguma vez, todo segundo que eu conseguia parar e ver chuva pingando devagar, eu segurava o passo. Aquilo merecia minha atenção. De alguma forma, isso dava às coisas toda uma outra luz.

Às vezes minha melancolia crescia demais, e parecia uma espécie de buraco negro dentro de mim. Às vezes ela ficava muito turbulenta e até uma coisa simples como uma ligação de telefone ou falar em público virava um evento seríssimo, com uma rapidez assombrosa de questões analíticas sobre um microssegundo que me faziam paralisar. Talvez, aos meus 18 anos, se algum profissional me examinasse, me achasse com algumas tendências à ansiedade e depressão, mas isso nunca aconteceu. Análise mesmo só tive de leitores de um (ainda bem) defunto blog, no qual eu expunha e expiava essas pequenas tristezas tentando decupá-las em palavras, raramente ou nunca expondo o cenário ou a acontecimento que as inspiraram a ser. Era um saco. E era tudo que eu precisava e queria.

O fato é que pra mim esse sentimento conseguia preencher coisa demais. Verdade, eu ficava feliz sim, mas era um sentimento vivido e passado de outra maneira, por outra via. E eu também me sentia isolado quando feliz — como se a felicidade me vedasse e me protegesse do mundo. A melancolia, por outra vida, me conectava com o mundo. Vai ver era por isso que eu nunca vi graça alguma na suposta alegria de torcidas de time futebol, e porque eu via os mesmos capítulos deprê de séries e animes até 40 vezes. Eu nunca repeti a mesma coisa se a achasse só feliz.


Também acho, de alguma forma, que meu cérebro sempre foi programado para ser mais perceptivo a isso.

Meus parentes mais próximos contam de quando eu era pequeno e chorava muito, às vezes do nada — quando me perguntavam o que era, eu alegava ser uma crise de melúria, palavra que até hoje não sei de onde tirei. E eu era um junkie de Em Busca do Vale Encantando, tendo visto inúmeras vezes a morte da mãe do Littlefoot.

See.

Hardwired.


De alguma forma a gente começa a parar de falar de melancolia. Era mais nisso que eu estava pensando na janela do avião. A gente pára de falar de todas as micro-tristezas que a gente enxerga. Acho que se torna muito oneroso falar com as pessoas sobre tudo isso, porque muitas pessoas têm aversão ou receio disso.

A melancolia não é uma cor que cai bem pra todo mundo. Tem gente que não sabe lidar com ela. Para mim, ela sempre foi algum estado de espírito que me deixou experimentar de forma mais aguda e com uma diferente sensação de tempo tudo aquilo que eu já estava experimentando, como aquela última noite de uma viagem inesquecível. A diferença é que eu fazia isso muito deliberadamente.

As pessoas se preocupam se você está melancólico. Talvez tenham razão. Mas no fundo de tudo, na grande maioria dos casos, de alguma forma eu conseguia estar vivendo essa melancolia e estar, ao mesmo tempo, bem. E isso sempre foi muito complicado de explicar às pessoas — como eu podia transitar para aquele estado e conseguir achar alguma beleza lá, a partir do que eu via. Reafirmar o que era bom, o que era justo, o que era identitário e o que contribuía para algum embelezamento do mundo mesmo e às vezes justamente por isso tudo estar ausente ou imperfeito.

A melancolia quase sempre foi o fio que me conduziu à ficção e às músicas. A melancolia foi um importante conector com pessoas, ideias e sonhos ao longo da minha vida. Como é que eu poderia não ser um curtidor inveterado de bads?

A única coisa a temer é não ter mais tantas viagens de avião sozinho escutando apenas músicas sincronizadas no celular para pensar direito nisso tudo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.