Precisamos falar sobre Clay

[Atenção: O texto a seguir contém spoilers da série]

13 Reasons Why está hype e despertou discussões acerca de bullying, opressão, suicídio, ansiedade, pressão social e o relacionamento das pessoas nessa fase tão importante da vida: a passagem da adolescência para a vida adulta. Os últimos respiros com a proteção familiar (se você tem uma família presente), a descoberta de quem se é e a projeção de quem se quer ser, decisões importantes sendo tomadas nesse período, como a escolha da faculdade — e os caminhos que essa escolha implica, finalização de um ciclo que para muitos pode ter sido prazeroso e brilhante, e para outros, um verdadeiro inferno. A série traz apontamentos sobre esse universo jovem e principalmente o que toda essa vivência, e a falta de compreensão sobre a mesma, acarreta na vida de uma pessoa.

Creio não ter sido a única a ficar mexida com a produção. Foi a primeira vez na minha vida que uma série me prendeu de tal forma que me fez vê-la inteira em menos de 24 horas. Foi a primeira vez que fiz grupos de discussão com amigas para falar sobre o que achei da série e como ela me impactou. Primeira vez também que me envolvi em conversas com outras pessoas sobre como as coisas se desenrolaram na trama. Mas essa obra ficcional é muito mais real do que muita gente pode sequer imaginar, e alguns comentários vistos ao longo dessas horas que se sucederam a eu ter finalizado a série me incomodaram. E muito.

Precisamos falar sobre Clay, e precisamos falar agora.

Há quem ache que o personagem foi clichê. Em certos momentos eu achei. O bom rapaz que era bom demais para Hannah. O bom rapaz que chegou na hora errada e não fez o que deveria ser feito. Previsível. Mas… o que deveria ter sido feito mesmo?
Toda a narrativa dos motivos de Hannah transcorre entre o que a ela conta somados com o que Clay absorve do que escuta e suas lembranças e impressões. As partes em que ele conversa com o Jeff, por exemplo, não existem para Hannah. A forma como é retratada sua dor e impacto dos acontecimentos não é a realidade, simplesmente porque por mais que ela conte e ele a escute, essa representação dos acontecimentos é o que Clay escuta. Há cortes atemporais, o que significa que não sabemos exatamente quanto tempo mal e quanto tempo bem ela esteve, e como ela demonstrava isso as pessoas que a rodeavam. Nós, como espectadores, não temos noção do que aquela pessoa viveu no seu íntimo e como — ou se — ela reagia a tudo. Estou tentando culpabilizar Hannah por seus atos? Estou tentando apontar que talvez ela mentisse ou dramatizasse seus sentimentos? (afinal ao contrário do que ela conta, Zach guardou sua carta, não guardou?)

Não dá, né?

Então, como podemos friamente julgar Clay por ele não ter prestado a “assistência” que ela precisava?

Li comentários de que “se ele se importasse, ele teria a ajudado”, “ele foi covarde”, “estava tão na cara”. Mas não, não estava. Esse julgamento é cruel. Clay era um adolescente comum que também estava tentando lidar com suas próprias questões. Já havia tomado remédios para amenizar o que acredito ser ansiedade, conversado com profissionais, era inseguro com seus próprios atos (necessitando dos empurrões do Jeff para tomar atitudes com Hannah). Era o estereótipo de garoto tímido norte-americano que já vimos em várias produções, e se esse tipo é constantemente retratado é porque há muitos iguais a ele. Clay não era o príncipe encantado que salvaria Hannah da morte. Não romantizem os acontecimentos. Hannah não precisava de príncipes, ela precisava de respeito, de espaço. Ela precisava ser levada a sério.

Além do mais, não podemos ignorar as diferenças comportamentais causadas pelo que é ensinado para os meninos e para as meninas. Muitas das coisas (como a lista dos atributos físicos que Alex colocou a Hannah e a Jess) eram encarados como “elogios” ou coisas que não chegavam perto de machucar os meninos se fossem feitos com eles, mas para uma mulher em formação, ser objetificada e resumida à sua bunda é algo bem horrível. Uma criação machista (é o comum, por mais que não seja o estereótipo da testosterona) te torna minimamente machista, não é mesmo? Não dá pra cobrar desconstrução de um menino de 17 anos, ainda. Clay só percebeu o peso de algumas coisas sofridas por ela depois de ter ouvido as gravações, tanto por não ter percebido como por não dar a devida atenção às coisas.

Clay era apenas um rapaz, vivendo suas diversas inseguranças, assim como Hannah. Assim como eu, e como você. Assim como milhares de pessoas que por infelicidade da vida encontram seus filhos, pais, irmãos, amigos e conhecidos mortos. Que precisam lidar com a morte de alguém, com a culpa de pensar se podiam ter feito alguma coisa para evitar que esse fosse o fim. Que se sentem impotentes por não ter percebido algo, que se perguntam todos os dias o que poderia ter sido diferente. Não julguem a vítima, mas também não culpabilizem quem estava próximo dela. Não digam que foi falta de tato, amor, atenção, cuidado. Isso não é tão simples.

Nunca é.