Semana Santa

A sacada reluzia luz de meio dia. O sol invadia geométrico a sala de estar deixando o chão de taco ora brilho ora breu. A gata se esticava nos pequenos pedaços de calor e ronronava baixinho o seu banho de sol. A mosca voava ao rés-do-chão em rasante no tapete cor de ferrugem de açafrão e de nada. A gata como eu notou o zum zum zum do par de asas e abriu ferozes os olhos. A pupila felina encolheu num instante e se voltou à onomatopeia alada com intensidade de raios laser. O inseto deu de asas e continuou seu caminho alheio ao que estava por vir. As patas de almofada cor de rosa se uniram numa palma tão rapidamente que eu não pude acompanhar. A gata pegara a mosca.

O silêncio reinou soberano na sala. A abertura das patas libertou o inseto mas já tirara dele a vida. O cadáver sacudia as quatro perninhas apontando o céu. A atenção da gata morrera junto da mosca. O bocejo escapou pelos meus lábios e se espreguiçou no ambiente antes quieto que se calou logo em seguida. A maciez do sofá engolia minhas pernas preguiçosas e meus olhos pesados. O corpo afundava vaga rosa mente.

O bater de asas irrompeu no espaço em um grito de denúncia que de morta a mosca não tinha nada. O bichano voltou seu olhar perplexo ao insistente inseto e se pôs aos trabalhos novamente. A perseguição durou pouco e tão logo o inseto ressuscitou ele morreu outra vez. A gata não cometeu o mesmo erro de outrora e atestou o óbito com abruptas patadas na ex-istência fincuda. Os dentes afiados se fecharam apenas com a força necessária para manter o bicho entre dentes e o trouxe ao pé do sofá. O simbolismo da aventura eu ignorei e fui passar um café.