Um girassol que tem a cor de seu cabelo

Van Gogh

Escuro. Longo. São finos fios que se emaranham nos meus dedos. Os nós das minhas mãos se enozeiam nos nós de seus cabelos. E tão compridos.

O negro se destaca no azul de seu lençol e travesseiro e céu e livro e mar. Você respira profundamente, e dorme. Dorme pesado, mas não mais pesado que o sol que brilha pela janela e reflete em seus cabelos negros. Brilhantes, cheiro de flor.

Na cama, seus fios desenham um desenho abstrato. Como a vida, sem forma, sem sentido, mas que eu atribuo um significado. Nas linhas que esticam seus cabelos, há toda poesia escrita. Não sei ler, porém. É língua ainda não inventada pelas mulheres ou pelos homens ou pelos anjos. A língua, na minha, é sua.

Tento não atrapalhar seu sono, mas te acordo no cafuné. Cafuné, palavra brasileira, que, como você, só existe aqui. Mas você, não como ela, só existe agora.

Como se deus, num ímpeto de artista, manchasse o colchão com uma gota de nanquim e deixasse ela escorrer infindável, aforma, preta que nem céu sem estrela, seu cabelo derrete e se mistura no azul. Toco com meus dedos. Fios finos outros não. Estico feito caramelo, acaricio, enrolo no seu desenrolar.

Os nós das minhas mãos se enozeiam nos nós de seus cabelos.