Os caminhos aos quais me levou o veganismo


Não raro pessoas ficam surpresas quando entram em contato com meu modo de vida — há a surpresa legítima e há o descaso, mas isso fica pra depois. Momentos de alimentação coletiva em que todos comem comida ~normal e eu minha aveia com frutas, a questão surge: mas então o que você come? E como você vive? Mas por que você não usa antitranspirante? Não é uma tendência moderninha?

Não, ainda não pertenço ao universo biker. Foto meramente ilustrativa.

A reposta é longa.
Me tornei vegana há cerca de 4 anos. Essa tomada de decisão veio basicamente da vontade de tornar coerente meu vegetarianismo — não fazia sentido não consumir carne por entender o absurdo da exploração animal e continuar consumindo outros produtos ainda mais nocivos à vida. Moro em um grande centro urbano que me oferece a oportunidade de achar alimentos diversificados por preços baixos e fácil acesso, então juntei a fome com a vontade de comer e cortei da minha vida os frutos da exploração animal.

Ainda por algum tempo demorei para perceber o que significava para mim o veganismo. Por mais que eu expandisse seu significado teorico, minha prática seguia muito atrás daquilo que aprendia com o passar do tempo. Mesmo vegana continuei consumindo produtos industrializados de grandes marcas transnacionais (se eram veganos, qual o problema?), açúcar refinado, glucose de milho, toda sorte de transgênicos, gorduras da pior espécie, cosméticos e por aí vai. Apesar de saber dos impactos desses produtos no meio ambiente, todos pareciam extremamente necessários para minha vida (como um dia o frango empanado pareceu) e não fazia sentido cortá-los — até que uma luz se acendeu na minha forma de consumir.

Não sei especificar quando ou como isso começou, mas a certa altura eu não conseguia mais consumir aquilo que fosse contra minhas convicções. Era pegar algo na prateleira do supermercado e minha voz interior surgia sorrateira: “você quer mesmo dar seu dinheiro pra essa empresa?”. E tchan, o produto voltava para a prateleira meio querendo ir, meio querendo ficar.
Foi uma mudança gradual. Não cortei tudo do dia pra noite. Foram meses dando escorregadas, aprendendo, me informando, pesquisando, abandonando velhos hábitos e me entregando a um mundo vasto de aprendizagens. Aprendi a costurar, a cozinhar, a plantar, a ler rótulos de alimentos aparentemente inofensivos. A usar farinha de mandioca no lugar da areia industrializada para a caixinha das gatas, bicarbonato de sódio em quase tudo que se refere à higiene, a fazer meu (maravilhoso) desodorante caseiro, a arte da saboaria, a cortar supérfluos, vícios desnecessários. Me livrei de uma depressão horrível que me atormentava há pelo menos 6 anos, de hipoglicemia e gastrite que me acompanhavam desde que era criança, de colesterol precoce, de crises de ansiedade e de pânico. Abri meu mundo cortando produtos que até então pareciam existir para me dar conforto e felicidade.

Essas mudanças abriram meu olhos para uma imensidão de tretas. Para a saúde infantil, uma vez que trabalho diariamente com crianças pobres e vejo o quanto seus hábitos de consumo são precarizados pela falta de dinheiro e pelo poder de convencimento da propaganda e dos baixos preços dos alimentos ultraprocessados. Para a situação da produção agrícola familiar, lutando para sobreviver competindo com o agronegócio, que age de forma completamente criminosa e sem escrúpulos. Para a falta d’água, que vem dando suas caras de forma mais alarmante depois de décadas de poluição desenfreada e consumo irresponsável. Para as mudanças climáticas, intimamente relacionadas ao desmatamento para produção agropecuária e à produção industrial pela queima de combustíveis fósseis. À luta do indígenas contra o genocídio e tomada de suas terras pelo mesmo agronegócio que esmaga os pequenos agricultores. Aos males dos agrotóxicos, do adubo químico, do lixo industrial, da produção de plástico, da extração de petróleo, dos 400ppm de CO2 na nossa atmosfera.

Não é preciso ser vegano para se abrir a estes temas, toda e qualquer pessoa tem muita possibilidade de mudança de hábitos e novos aprendizados. Mudanças dessa natureza significam menor gasto de dinheiro inútil (e mais dinheiro na mão de quem produz com dignidade e respeito ao meio ambiente), mais saúde, conhecimento e, com sorte, mais empatia. Pode não salvar o mundo, mas não é isto que vai arruiná-lo.
O exercício cotidiano indispensável é, para mim, nunca deixar de pensar como agir cada vez mais de forma coerente às minhas convicções. O que ainda há para mudar, aprender e ensinar?