A Ditadura e o papel das Igrejas Presbiterianas e Batistas no processo de Redemocratização

No dia 15 de janeiro de 1985, a população comemorava a primeira eleição direta para Presidente da República, após mais de duas décadas de Ditadura Militar. Tancredo Neves representava a esperança que os brasileiros depositaram na volta da Democracia.

Com os acontecimentos políticos da atualidade, tais como protestos, eleições extremamente acirradas e grandes denúncias realizadas pela mídia, alguns grupos tem questionado a validez do sistema democrático brasileiro. Para estes casos, é conveniente realizar uma reflexão sobre a História do Brasil, tangendo talvez não o início desta crise que o país enfrenta, mas parte importante dela.

Décadas antes da tomada militar, o Brasil já atravessava turbulências como inflação alta e um quadro político instável — lembrando do suicídio de Vargas, impedimento de Café Filho e Carlos Luz, renúncia de Jânio Quadros e da posse “barulhenta” de João Goulart.

Com as reformas de base realizadas por Jango para resolver os conflitos (vide a tomada de medidas para tentar melhorar os índices de inflação, a criação de um Conselho Nacional de Reforma Agrária e do Estatuto do Trabalhador), os ânimos da população se agitaram — tanto do lado positivo como do negativo. Ironicamente, dentro das Igrejas encontravam-se integrantes destes dois grupos.

O medo da “comunização” atingia a parcela da população que havia presenciado acontecimentos mundiais como a ascensão dos regimes comunistas (expansão do ateísmo), polarização dos países e mesmo a Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, um grande número de pessoas se abraçava às medidas nacionalistas, pois entendia que eram a solução para os impasses brasileiros.

Este embate político e ideológico presente na sociedade já existia há décadas dentro das Igrejas, com crises de vertentes internas, vide os conflitos entre progressistas protestantes e conservadores.

De fato, o Golpe só aconteceu pois teve apoio de setores presentes na sociedade brasileira. Entre eles, as instituições religiosas. Fator, este, que mudaria ao longo desta experiência política, se tornando mais dinâmico e variado.

A Ditadura foi uma experiência complexa, que deixou heranças boas e também ruins. Traçando um panorama daquela época, podemos citar algumas características marcantes do Regime.

Uma delas foi o crescimento econômico, vide o Programa de Ação Econômica do Governo, ou PAEG. Como consequência da expansão industrial, principalmente nas áreas de siderurgia, petroquímica e eletricidade, e investimentos estrangeiros, o PIB apresentou crescimento de 10,3% ao ano entre 1967 e 1973, de acordo com publicação (2015) do Estado de S. Paulo. O setor financeiro também sofreu mudanças. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) passou a oferecer crédito barato para investimentos no setor privado, o que gerou aumento de consumo.

Embora este crescimento tenha sido expressivo, não houve distribuição de renda, e o “boom” gerado nas cidades foi completamente desordenado, realidade com a qual convivemos até os dias atuais. As indústrias e hidrelétricas nacionais que foram construídas também fizeram parte do endividamento.

Os empréstimos começaram a fazer pesar a dívida externa, o que prejudicou o desenvolvimento de ações nos anos seguintes, já que a dependência do FMI (Fundo Monetário Internacional) passaria a ser presente.

Os sindicatos, à época controlados de perto, não puderam conter medidas que prejudicavam os trabalhadores. O arrocho salarial era citado como responsável pela falta de melhoras sociais internacionalmente. Houve deputados presbiterianos e líderes batistas cassados e perseguidos por se oporem a estas políticas.

A economia, até então utilizada como instrumento para legitimação do Regime, passou a se voltar contra o militares, que há anos já haviam fechado o “cerco” em torno da mídia ou de centros que propagassem “ideias subversivas”.

A visão geral acaba com a recessão econômica, causada pela dívida externa e constantes investimentos arriscados por parte dos ditadores. O Movimento Democrático Brasileiro ergue novos líderes e vira o jogo. A própria consciência dos militares de que o Regime durara muito batia à porta. Pouco a pouco, houve a abertura e afrouxamento da política vigente.

O papel exercido pelos protestantes do Período Militar até a Redemocratização reflete a contradição de pensamentos e opiniões da época. O autoritarismo imposto pelo Governo se fez presente também em todo o universo evangélico, que mundialmente possui, em teoria, um discurso “liberal”. Alguns líderes delatavam membros, outros os protegiam. Os Centros de Estudo e Debates encontraram amparo em algumas Igrejas — em outras não. Deputados foram cassados, Pastores presos. A intenção é compreender os motivos que levaram a estas reações, para poder completar o mosaico que foi a atuação protestante naquele tempo.

Para melhor compreensão do papel que as Igrejas Protestantes desempenharam durante a Ditadura até o processo de Redemocratização, é necessário entender um pouco de sua história. Desta forma, poderemos acompanhar o quão opostas e contraditórias são as premissas do protestantismo real e as atitudes tomadas por parte dos membros eclesiásticos brasileiros. Ainda, é importante justificar o combate interno que as Instituições enfrentavam.

O protestantismo é uma denominação cristã. “A denominação é uma adaptação religiosa a um determinado arcabouço ideológico e dadas condições materiais.” (BITTENCOURT apud DIAS, 2014, p. 16). No ideário das Igrejas Presbiterianas e Batistas, em escala mundial, existia uma afinidade extrema à projetos liberais.

“A Reforma participou na formulação do liberalismo clássico, mesmo que involuntariamente. Calvino e Lutero lutaram pelo direito de livre exame da Bíblia, bem como tomada a posição dos indivíduos frente as imposições das instituições existentes” (LIMA; ÉBER 2005, p.36).

Este apoio protestante auxiliou a viabilizar a nova ordem política mundial. O próprio termo “liberalismo” começou a ser utilizado com outro viés, e passou do campo político para o religioso, com ênfase na liberdade de pensamento e tolerância para novas interpretações doutrinárias.

Mesmo centenas de anos após as teses de Lutero, o embate dentro das vertentes protestantes ainda era gigantesco. De fato, as características colocadas em xeque giravam em torno da aceitação de algumas premissas científicas, tendo como principal base o questionamento e o debate dentro das Igrejas.

Seria uma nova forma de se pensar a sociedade, com novos pontos de perspectiva. Isto gerou uma grande cisão entre os praticantes religiosos, especialmente nas Igrejas norte-americanas. De acordo com Lima (2005), iniciou-se uma espécie de disputa entre os religiosos considerados “liberalistas” protestantes e os considerados “conservadores”. Estes últimos acreditavam que certas discussões não deveriam ter espaço na Igreja.

A onda protestante chegou ao Brasil por meio de missionários estadunidenses, herdeiros de uma discurso apologético a democracia. Até o momento em que o período missionário acabou, a denominação havia obtido um crescimento razoável. Algum tempo depois, porém, o crescimento parou. Bittencourt apud Dias (2014) ressalta que o protestantismo encontrava-se estagnado, cheio de conflitos internos, e se tornou uma espécie de subcultura. Esta mentalidade estará na base de milhares de grandes e pequenas rupturas que se deram nas denominações cristãs clássicas.

Para Lima (2005), o protestantismo brasileiro é fruto destes acontecimentos nas Igrejas americanas, com influência bem maior dos conservadores. O grupo oposto, por outro lado, também plantou suas raízes em solo brasileiro. E mesmo que muitas de suas instituições não tenham prosperado, a indagação ficou semeada entre a juventude presente em ações religiosas.

Ainda assim, a maior parte dos líderes eclesiásticos mantinham uma postura pró-militar. “O protestantismo desenvolveu no Brasil mentalidade e práticas autoritárias que se mantiveram encobertas por um discurso risonhamente democrático e liberal.” (CAMPOS apud DIAS, 2014, p. 180).

Desta forma, a análise do comportamento das Igrejas Batistas e Presbiterianas se inicia com este paradoxo: por um lado, o falso enunciado liberalista da maior parte dos líderes — o apoio ao Regime Militar. Por outro, a iniciativa inovadora de jovens criados na Igreja de questionar para entender melhor a Palavra e poder tomar consciência política — o que gerou notórios movimentos que se contrapunham à Ditadura.

Basta entender que nos anos 50, a sociedade brasileira foi se tornando mais complexa. “Foram surgindo novos atores políticos, pastores e leigos, permeáveis a uma preocupação mais centrada na ação social, que estimulada pelo movimento ecumênico e pela teologia europeia foi divulgada (…) nos meios presbiterianos e estudantis de São Paulo.” (CAMPOS apud DIAS 2014, p. 189) Estas tensões ideológicas entre diretrizes e jovens argumentadores foram se intensificando com o tempo.

“Eles vinham com esta questão de atemorizar as pessoas contra os comunistas, fazer representações absurdas. A juventude da Igreja, que já sabia um pouco mais o que estava acontecendo não ficava calada (…) Era possível pensar em um Brasil para brasileiros. As questões nacionais eram presente e muitos ativas. O engajamento com o comunismo era só uma questão da hora e do dia. Com a Ditadura, isso se tornou um projeto em que a gente se abraçou para resistir.” (MACHADO apud REJU, 2014, min. 3.).

Este temor explica o posicionamento tomado por muitos líderes religiosos. Campos apud Reju (2014), relembra o pastor da Igreja Batista Enéas Tognini, que convocou cristãos evangélicos para um dia nacional de oração e jejum pedindo que Deus libertasse o Brasil da ameaça comunista. O mesmo se repetiu no dia 21 do mesmo mês, agora uma movimentação para agradecer pelo “milagre” — o milagre era o Golpe.

Por puro temor ao que pudessem representar os oposicionistas ou por infiltração, as ações sociais promovidas pelas Igrejas eram vigiadas de perto. De acordo com Dias (2014) sabia-se que pessoas que ocupavam cargos estratégicos em organizações dita missionárias ou evangelizadoras eram militares ou agentes ligados às chamadas comunidades de inteligência.

A repressão logo se fez presente dentro dos templos evangélicos. Um dos casos mais graves aconteceu na própria Igreja Presbiteriana, que não desligou apenas seminaristas e membros, mas sim regiões eclesiásticas inteiras com suas respectivas comunidades.

Outro caso é o do Pastor Jovelino Ramos, um dos fundadores da Associação Cristã de Estudantes.

“Todos as sextas-feiras à noite seus membros vinham à minha casa para estarem juntos, trocar ideias, planejar […] Certa vez um presbítero disse haver descoberto que eu estava registrado na Divisão de Ordem Política e Social (DOPS) como esquerdista. […] Eu deveria comparecer à delegacia de Segurança Nacional para prestar depoimento. Uma proposta conciliadora veio do Presbitério, da prorrogação da minha permanência […] Declarei que não me sentia bem de continuar pondo no ombro da comunidade um fardo que era meu. E juntos decidimos procurar outro pastor para a Igreja”. (RAMOS apud DIAS, 2014, p. 25).

Fugido para os Estados Unidos, este participou da Coligação de Pessoas do Terceiro Mundo, que desenvolveu o Comitê Contra Repressão no Brasil, apoiado por inúmeras figuras importantes, como o próprio Paulo Freire, também exilado à época. Já em meados de 1975, os protestantes não possuíam muitos representantes em cargos políticos diretos.

A exceção era Lysâneas Maciel. “Ele tentou resgatar o exame físico dos que seriam presos antes de caírem nas garras dos torturadores. A partir de 1974, arrisca um passo a mais em sua luta contra a ditadura, e começa perigosamente a nomear os responsáveis por ela. Três dias depois estava cassado. (MACIEL, REGINA apud DIAS, 2014, p. 36).

As torturas foram infligidas a membros eclesiásticos exatamente do mesmo modo. “Ia de acordo com o roteiro. […] Quem fazia o trabalho sujo nem sempre era das Forças Armadas. Traziam gente do DOPS, Polícia Civil ou Militar. Os torturadores já estavam acostumados a torturar presos comuns.” (CAMPOS apud REJU, 2014, min. 33.).

Todos os membros excluídos das próprias congregações, mais tarde, irão se aglutinar e formar a Igreja Presbiteriana Unida, uma forte dissidência que continua firme até os dias atuais. “O tempo continuou e passamos a nos envolver muito mais nas questões dentro da IPU, que nasceu exatamente deste processo de perseguições […] uma Igreja que tem como opção sua participação nos movimentos sociais, nas questões de política de maneira geral.” (EMMERICK apud REJU, 2014, min 46). Esta nova vertente acolheu e abrigou inúmeros pastores, seminaristas, presbíteros e membros comuns colocados para fora de suas “Igrejas-mães”.

Entre outros personagens que foram despertados para a luta podemos citar Paulo Stuart Wright, presbiteriano, deputado estadual eleito pelos catarinenses, expulso da IPB de Florianópolis onde fora eleito presbítero, mas impedido de tomar posse, e cassado como deputado pela Assembléia Legislativa por determinação dos militares. O seu desaparecimento motivou seu irmão, Rev. Jaime Wright, a participar do “Projeto Brasil Nunca Mais” ao lado do Cardeal Paulo Evaristo Arns. A ideia era inicialmente católica, mas foi aderida por diversos evangélicos — uma coisa rara até então. Autores e contribuidores reuniram documentação para publicar uma obra sobre a repressão.

Este grupo conseguiu fotocopiar 707 processos que estavam no Supremo Tribunal Federal, somando mais de um milhão de páginas fotocopiadas. Foi feita uma compilação, um levantamento de todos os dados que estavam lá registrados. Tudo com base em documentos oficiais. Era incontestável. (…) Resultaram doze volumes que foram encadernados e disponibilizados em Universidades Públicas. O livro foi produzido e colocado nas livrarias sem nenhum lançamento oficial. (…) Quando os militares perceberam, era um sucesso de vendas. Eles não tinham mais como retirar o livro de circulação”. (MACHADO apud DIAS, 2014, p. 58).

O engajamento dos presentes neste Projeto deu-se pelas atividades no Conselho Mundial de Igrejas (CMI) de Genebra, refúgio para muitos que foram mantidos distantes da militância. Esta prática de união entre católicos e protestantes se tornaria muito mais comum alguns anos depois. Segundo artigo da Diocese Frederico Westphalen (2013), o ecumenismo é a busca da unidade “plena” e “visível” entre todas as denominações cristãs. Este agrupamento gerou uma discussão latente, e traçou o caminho para diversos estudos e correntes ecumênicas da atualidade.

Ainda assim, “os membros de uma tribo ecumênica mantiveram viva a bandeira da oposição. […] eles atuaram entre o que restava de espaço democrático.” (CAMPOS apud DIAS, 2014, p. 189) . Um dos frutos desta corrente é o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), e a Confederação Evangélica do Brasil (CEB). Esta última realizou a Conferência do Nordeste, cujo objetivo era despertar as Igrejas para o uso de estratégias e despertamento de consciência política e social das congregações participantes. O trabalho era realizado junto à jovens em Pernambuco. As reuniões logo foram descobertas, e os Reverendos envolvidos nesta tiveram suas Ordens cassadas um a um.

Este espaço democrático foi se tornando maior com o passar do tempo. As políticas da Ditadura não funcionavam mais. A recessão econômica já durava três anos sólidos e a dívida externa aumentava a cada nova manobra dos Estados Unidos com o dólar. Ainda, a dependência junto à órgãos como o FMI realizava pressão nos governantes.

A guinada do Movimento Democrático Brasileiro com Ulysses Guimarães, As Diretas Já, e todos os recortes religiosos mostrados no presente trabalho levaram, de pouco a pouco, à Redemocratização. Logo veio o anúncio do “afrouxamento” do Regime.

CONCLUSÃO

Com a abertura das políticas militares, a anistia se tornou uma questão em pauta. Alguns militantes da Igreja Batista e Presbiteriana foram soltos, outros nunca tiveram seus corpos encontrados. De qualquer maneira, todos os personagens citados e muitos outros que podem ser encontrados nos livros apontam para a não desistência, para a vontade que parte da população empenhou em lutar a favor do que acreditava ser a solução para o país.

Alguns grupos religiosos apoiaram o Golpe se tornaram delatores, mesmo dentro das Instituições Religiosas. Outros agrupamentos se reuniam para planejar ações sociais que pudessem auxiliar o desenvolvimento da nação, e entraram em uma batalha completamente desigual em questão de forças. Cada uma dessas histórias contribuiu, ao seu modo, para a volta da Democracia.

“Não sem motivo, a ditadura escolheu sumir com o corpo das vítimas, a carne que coloca-se no hiato entre o dito e o não dito, que mesmo sem dizer, anuncia; uma presença-ausência que perturba e desestabiliza, questiona, provoca e não nos deixa silenciar”. (SOUZA apud DIAS, 2014, p. 174).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DIAS, Zwinglio M. (Org.). Memórias Ecumênicas Protestantes: os Protestantes e a Ditadura, colaboração e resistência. 1. ed. São Paulo: Koinonia, 2014, 202p.

DIOCESE FREDERICO WESTPHALEN. O que é ecumenismo. Disponível em: <http://www.diocesefw.com.br/arquivos_sin/35.pdf>. Acesso em: 09 de Maio de 2015.

FACULDADE DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DA FEIRA DE SANTANA. Os batistas e a redemocratização (1979–1995). Disponível em: <http://www2.uefs.br/semic/upload/2011/2011XV-045RAF414-220.pdf>. Acesso em: 05 de Abril. 2015.

LIMA, Éber Ferreira Silveira. Protestantes em confronto: conservadores e liberais. 1.ed São Paulo: Pendão Real, 2005, 121p.

MATOS, Alderi Souza. Síntese histórica da Igreja Presbiteriana no Brasil. Disponível em: <http://www.mackenzie.br/15615.98.html>. Acesso em: 20 de Abril, 2015.

REJU. Muros e Pontes: Memória Protestante na ditadura. [Filme-vídeo]. Produção realizada pelo projeto “Memórias Ecumênicas Protestantes no Brasil”. São Paulo, Presença Ecumênica e Serviço, 2015. 63 min. color. son.

SILVA, Hélio. 1964: Golpe ou Contragolpe? 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, 446p.

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