Comentário — 17/04/2015

A antítese brasileira

Angela Maria de Castro Gomes nasceu em Itaperuna, interior do Rio de Janeiro, no ano de 1948. Graduou-se em História pela Universidade Federal Fluminense alguns anos após o Golpe Militar (em 1969). Possui mestrado e doutorado em Ciência Política, de acordo com artigo publicado pela Fundação Rui Barbosa.

É professora titular aposentada da Universidade Federal Fluminense e foi professora pesquisadora do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da Fundação Getúlio Vargas. Publicou mais de 34 obras, estando entre as mais famosas “A invenção do trabalhismo”, “História e historiadores: política cultural do Estado Novo” e “A república, a história e o IHGB”.

Esta resenha tem como objetivo compreender a organização social brasileira, sua conjectura e diagnose. O texto analisado para tal, escrito em 1998, remete a problematização nas relações das esferas pública e privada no país, e em como esta dualidade explica os conflitos do passado e as barreiras sociais da atualidade. É um dos capítulos do livro “História da vida privada no Brasil. Elementos passados em aula também serão material de apoio.

A autora inicia a obra com uma passagem de Rui Barbosa sobre a crise de identidade e representação sentida pelo povo brasileiro. Citando um trecho: “O Brasil, senhores, sois vós. O Brasil é esta assembléia. O Brasil é este comício de almas livres […] Não são os falsificadores de eleições. Não são os compradores de jornais. Não são os corruptores do sistema republicano. Não são os oligarcas estaduais”.

O discurso é uma crítica ao “artificialismo” do modelo de governo, que carregava um liberalismo falso, onde a participação política do campesinato e do novo operariado urbano era praticamente impedida de se concretizar. É uma desaprovação das fraudes eleitorais, do poder oligarquico em comparação com a pequena ou nula representatividade da qual o resto da população gozava.

Rui Barbosa era liberalista, pregava por uma modernização nas estruturas nacionais, queria partidos e parlamentos. Seus anseios eram um espelho das transformações que ocorriam no resto do mundo. A Primeira Guerra, a Revolução Russa e outros acontecimentos abalaram as antigas crenças políticas e agitaram as massas.

A avaliação citada também engloba as diferenças entre o Brasil rural e o Brasil urbano, este último ainda em fase de amadurecimento. O avanço da modernidade sobre o campo trazia à tona o atraso em que o país se encontrava, tendo a maior parte de sua economia baseada na pecuária de exportação — que não permitia a criação de novas tecnologias ou qualquer técnica. Esta contradição é chamada pela autora de “Brasil real x Brasil legal”.

Ainda, para Castro Gomes, a antítese viva podia ser exemplificada na comparação entre o próprio Rui Barbosa e o também político Pinheiro Machado, ambos grandes símbolos.

Pinheiro Machado era oposto à autoridade central do Estado, e tinha boas relações com diversos oligarcas, sendo importante apaziguador entre as ambições divergentes destes.

Apesar do anseio daqueles que estudavam e propunham medidas na época, o público e o privado eram, de maneiras diferentes, representantes dos desejos individuais acima dos interesses públicos.

Posteriormente, a ascensão dos “nacionalismos” ao redor do mundo, como no fascismo, serviria como crítica direta ao modelo liberal. A ineficácia da “democracia” aplicada no Brasil ficava cada vez mais clara e levava alguns a acreditar que o molde de Estado proposto por Rui Barbosa era, na verdade, um atraso.

É neste cenário que se pode entender o levante do populismo e a cadeia de situações que levaram o país até o Estado Novo, de Vargas. A partir deste ponto, a figura do governante passou a ser vista como aquele que media e une, que “promove a junção da justiça e da lei”. Seguindo esta lógica, a extinção dos partidos serviria para que o único partido fosse a própria nação. Este Estado corporativo estrategicamente junta os sindicatos na própria hierarquia estatal.

O estado de favores, a relação de compromissos que já era mantida há muito tempo na cultura brasileira por pequenos poderes descentralizados agora se juntava no mito de uma figura que veio para salvar e erguer o país.

Vargas representava a nova camada urbana, a modernização (também dos meios de comunicação), a criação da indústria de base nacional, a saída do comum eixo SP-MG, a criação das leis trabalhistas.

Conhecido como “pai dos pobres”, era símbolo do apelo emocional e das crenças do trabalhador. E, apesar de todos os avanços, também era símbolo da falta de maturidade política do povo brasileiro, que, ainda hoje, procura a imagem de um indivíduo, de um grande líder, e não de um partido ou setor que encarne suas necessidades.

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