Comentário — 31/08/2015

Podemos traçar o panorama do que o país enfrenta analisando um dos últimos movimentos de Dilma Rousseff: a aproximação à Renan Calheiros. Esta atitude significa conquistar o apoio do Senado quando as perspectivas não estão favoráveis — vide precária relação com o presidente da Câmara Eduardo Cunha e recentes dissidências dentro do próprio partido. A atual manobra, entretanto, representa mais do que a oportunidade de assistência, e denota outra amarra a longo prazo.

Como Carlos Melo afirma no texto de Diego Viana para o Valor Econômico (2015), muitos destes desentendimentos são apenas um “abraço dos afogados”, em que um ator puxa o outro para o fundo do rio na esperança de se salvar em meio aos problemas. Lembrando que tanto Cunha como Calheiros estão sendo acusados pela Lava Jato — apesar de terem tomado rumos diferentes quanto ao posicionamento político. Um ponto intrigante é que os impasses deixaram de ser tratados como problemas nacionais, e passaram a ser jogados de um político para o outro — um espetáculo de “culpabilidade”.

É interessante ressaltar que este quadro também vale internamente para o PT. Alguns membros colocaram as propostas da Agenda Brasil, entre outras mudanças que a presidente tem estabelecido desde o início do mandato, como ideias que não representam o partido. Certamente aconteceram discussões, mas é visível que o parecer de alguns revela uma espécie de abandono — exatamente quando dilemas se mostraram mais intensos. Dilma é pressionada por absolutamente todos os lados, e esta crise de representação pela qual o país passa está presente em todos os setores. Mesmo a parcela da população que apoia a presidente está desacreditada no futuro.

Além da crise internacional, grande parte dos distúrbios foram causados por erros internos, alguns destes envolvendo heranças antigas. A desarrumação das contas fiscais, o gigantismo da máquina pública, a falta de atenção com os índices inflacionários. Tudo isto foi se espalhando, e inúmeros problemas setoriais foram gerados.

Mais do que nunca foi percebido quão necessária é uma reforma política, mas não há diálogo. Vivemos uma dicotomia. Por um lado, se o governo conseguisse apoio de grande parte da sociedade, não haveria reforma verdadeira — apenas medidas superficiais que não alterariam um equilíbrio ilusório; caso não tivesse (como não o tem) Dilma estaria praticamente impedida de articular, o que é a realidade atual. Enquanto pontos essenciais não forem tocados com efeito, estaremos sempre buscando uma “saída imediata” que nos livre, por certo tempo, de nossas preocupações.

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