TRINTA E QUATRO DIAS

Beatriz Duarte
Nov 3 · 2 min read

Se alguém me dissesse que ainda era possível viver apenas com uma parte do coração batendo, eu jamais acreditaria. Mas você sabia disso, não é? Foi desta forma que você passou a viver desde o dia que a vó se foi. Perder ela me descascou, mas partiu você pra sempre. Eu não entendia, mas entendo agora. Estou quebrada em milhões de pedaços impossíveis de se unirem novamente.

Eu sei que deveria ter tido a coragem de perguntar, sabe? Quando sua saudade se esbaldava em lágrimas, eu sei que deveria ter questionado como é que você fazia pra sobreviver sem a sua metade. Talvez eu teria me preparado. Talvez eu saberia como não estar oca agora. Talvez eu saberia lidar com o vazio que me consome e transforma qualquer sentido de vida em dor.

Mas perguntar sempre me pareceu um pouco de desistência, perguntar fazia parte de conceber a ideia de que um dia, você poderia morrer também e, para mim, você sempre pareceu imortal. Deus me livre de acreditar que você era apenas humana, passível de erros, tristezas, fraquezas e, principalmente, passível de morte. Você era amiga da dona morte. Eu criei essa amizade na minha cabeça e acreditava neste relacionamento sempre que você conseguia escapar dela. Ah,se eu soubesse…

Será que você me julgou capaz de aguentar tamanha dor? Eu sempre te achei tão forte e sempre me senti tão fraca. Como seria possível me remendar se nem você, minha definição de fortaleza, conseguiu tal proeza? Me pergunto se você sabia disso quando aceitou que já era hora de partir. Eu sei o quanto você lutou,mas me pergunto se você sabia que eu ainda estaria aqui, trinta e quatro dias depois, viva, mas só que pela metade.

Eu sei que você sabe, mas eu também queria ter entendido que a pior parte de perder alguém é o depois. A parte de lidar com a vida que não é mais a mesma e mesmo assim, ainda está lá. Ela não para e ainda te obriga acordar, sorrir e viver como se você estivesse inteira. Mas, como explicar para as pessoas que eu nunca mais serei inteira novamente, mãe?

Eu sei que não dá, eu sei que não posso, eu sei disso agora e sei que você sabia disso também. Sei pelo jeito que me olhava, sei pelo olhar triste e perdido quando te dizia para não chorar porque a vó havia descansado de todas as dores. Você sabia, sabia que eu jamais poderia compreender a dor de perder a mãe sem perder uma. Este é o problema, ninguém pode.

    Beatriz Duarte

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    Cartas de amor e ódio de uma escritora compulsiva.