Figo

Beatriz Kux
Jul 27, 2017 · 2 min read

Se esbaldava. Amava. Ficava horas entretido, submerso, mergulhando repetidamente, viciado em algum mel, em alguma néctar, em alguma fruta doce e colorida que quanto mais era chupada e mastiga e beijada mais doce e enebriante ficava. Ele seguia imerso, naufragado, afogado no gosto melado. Descobria e inventava infinitas fórmulas naqueles poucos e complexos centímetros do meu corpo. Centímetros de universo. Um portal do amor, do desejo, do prazer. Um universo inchadinho, gordinho, cheio de lábios pedindo beijos, pedindo mais. E reentrâncias, e rugosidades, e texturas. Em contato com boca carnuda, lábios molhados, língua quente. Não tinha pensamento, eram só sensações, era só instinto. Nenhum bicho precisa pensar pra se alimentar. E ele se alimentava de mim e eu me alimentava dele enquanto ele me comia. Era sagrado. Nenhum pecado. Era Deus. Era cosmos. Fechava os olhos, sentia, sonhava, imaginava eu sendo um figo na perfeição da natureza. Um figo doce, rosa, gostoso, fértil, repleto de texturas e sementes e saúde. Ele era um bichinho se alimentando. Plugado, delirante, apaixonado pelo próprio alimento que não acabava nunca. Eu alimentava Buddha, alimentava Krishna. Era Pacha Mamma dando todo seu amor, escorrendo amor. Tanto amor que não cabia e o fruto espremia, escorria suco. Eu era dilúvio. Eu era enchente. Irrigação. Já não sobrava terra seca. “Eu sou uma frutinha e você ta me comendo.”


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