A mulher invisível e o vidente

Era uma vez uma mulher invisível 
Cheia até a borda por dentro
Cheia de sentimentos pensamentos teorias filosofias palavras músicas expectativas sonhos especulações dúvidas e certezas
Mas invisível por fora

Ela era visível aos outros quando usava suas máscaras fantasias armaduras disfarces roupas figurinos
Todos viam o que ela queria que eles vissem
O que ela escolhia mostrar quando vestia sua fantasia
Mas ninguém a enxergava 
Todos viam
Mas ninguém enxergava

Ela era como um espírito 
Um espectro
Um fantasma
Que apenas um único vidente sabia enxergar
Pois ele estava disposto a ver
Ele aprendeu a ver
A olhar mais fundo e entender
Portanto, para ele, ela era visível

Ainda assim, de que adiantava apenas um vidente ser capaz de enxergá-la, se aos olhos dos outros ela permanecia invisível?
A mulher que gostaria tanto de se destacar e ser vista, sumia em meio à multidão
Pois os outros eram mais fáceis de enxergar
(Por que era assim? Ela ainda não sabe) 
(E talvez nunca saiba)
(Porque isso nem o vidente sabe)

Então ela permanece
Fria, dura e translúcida como uma taça
Um cálice

Se ninguém pode vê-la
Ou ouvi-la
Diga a ela para acostumar-se a isso
Diga a ela que cale-se