Futuro do Afeto — Reflexos do Eu

INTRODUÇÃO

No curso de Pós-Graduação de Design Estratégico e Inovação do IED, desenvolvemos um projeto na disciplina de Design Mindset, que consistiu em construir uma narrativa sobre um cenário do Futuro do Afeto.

A partir de um estudo coletivo sobre o afeto (desde o século XIII até a atualidade), e uma complementar pesquisa sobre as tendências tecnológicas e evolutivas para o mundo nos próximos 100 anos, identificámos um possível cenário para o afeto no ano de 2218: Extremos de um auto-afeto.

Direcionamos nossa reflexão e projeto para um cenário influenciado pelas tendências Ciborgue/Transhumanismo, Humanos além do planeta terra, Digisexualidade e Comunicação por telepatia, desenvolvendo uma narrativa fotográfica composta por 10 fotos, compartilhada no instagram.

Em seguida apresentamos o cenário que delineou o caminho de exploração e imersão que pretendemos aprofundar como cenário do futuro do afeto:

Extremos no Futuro do Afeto

No século XXI as relações humanas já transcenderam os limites geográficos graças à popularização e avanço das tecnologias em telecomunicações. As pessoas estão conseguindo manter relações afetivas à distância cada vez mais fácil, o que tem levado à diminuição do contato físico com outras pessoas.

A digissexualidade e a comunicação por telapatia, como tendências do futuro, somente reforçam que a tecnologia continuará avançando para facilitar o contato com pessoas distantes, já que o homem estará indo a territórios além do planeta terra.

Além disso, a crescente busca individual da identidade, auto-satisfação e amor-próprio também serão estimuladas com a diminuição das relações físicas. Essa busca constante da identidade, alinhada a tecnologias como transhumanismo e modificações genéticas, trarão a capacidade do ser humano se auto-transformar não apenas mentalmente, mas estética e geneticamente.

Essa possibilidade de auto-personalização corporal e intelectual vai configurar uma formatação de seres humanos auto-realizados e totalmente conectados com seus ideais e necessidades, culminando num nível extremo de auto-suficiência afetiva e sexual individual.

A otimização dos seres humanos vai se aprimorando ao ponto de reforçar o cenário de

distanciamento com o outro, comprometendo a necessidade de relacionamento e a vontade pelo outro, física e emocionalmente.

Com a soma destas circunstâncias, os seres humanos serão capazes de se auto-transformar a um nível tão específico e auto-satisfatório, que irão desenvolver um novo rótulo de pós-humano.

Hashtags: #futurodoafetoIED #2218 #autosuficienciaafetiva #individulismo #autoafeto

#extremos #poshumano

Sob o cenário apresentado acima descrita construímos uma narrativa que enunciamos em seguida.

Pesadelo (2018) vs Realidade (2218)

Caminho pela rua observando a vida acontecer ao meu redor, o mundo é um ambiente propício para cultivar o amor.

A taxa de casamento nunca foi tão alta quanto é agora, as pessoas andam rindo na rua.

As cafeterias e restaurantes nunca estiveram tão lotados, casais trocando carinhos, amigos conversando alto na mesa do bar, gargalhando como se aquele encontro fosse o melhor em anos.

Reencontros acontecem regados à abraços calorosos, o sol parece iluminar de uma forma a deixar os dias sempre mais bonitos, os pássaros cantam enquanto os pais estão a ensinar os filhos pequenos a andar no parque da rua.

Noto o cartaz do filme do ano, algo sobre um relacionamento intergalático que ultrapassa as distâncias. Enquanto minha companheira vem até mim para me abraçar, escuto ao fundo algo como ‘love saved me’.

Acordei assustado. Foi um pesadelo aterrorizante reviver em um mundo de compartilhamento do amor.

Me olho no espelho cheio de satisfação ao me perceber sozinho. Não havia ninguém para compartilhar meu afeto, apenas eu próprio, na minha plenitude.

Me posiciono para minha sessão de mindfulness matinal ao som de ‘all by myself’. Esse é um dos melhores momentos do dia, quando me conecto comigo mesmo.

Em momentos introspecção, reflito sobre questões existenciais e de que maneira posso me auto aperfeiçoar para apresentar o melhor de mim.

No escritório, faço minhas configurações estéticas e mentais, de acordo com aquilo que acredito ser o melhor para mim. Como é confortante estar consigo mesmo.


PROCESSO CRIATIVO

Com a narrativa pronta, partimos para o desenvolvimento de um novo projeto para a disciplina de Design Experimental. A proposta foi criar uma experiência do futuro do afeto que projetamos anteriormente.

Analisando as barreiras do cenário projetado e sob um pensamento aberto e sistemático para quebra de paradigmas, passamos por um processo de criação que começou pelo debrief da narrativa construída, geração de ideias em volume (sem bloqueios e limitações) até à criação do protótipo em papel para posterior viabilização do experimento.

Experienciamos o processo criativo de forma fragmentada. A intenção era fazer a construção em conjunto, mas como não foi possível, cada uma fez individualmente o seu processo reflexivo e criativo e num terceiro momento trocamos percepções e resultados e arredondamos um caminho proeminente da criação de cada uma. Ainda que não fosse o objetivo inicial, acabamos sentindo que enriqueceu o projeto

Síntese do processo criativo experienciado

1 — Conceitos

Ler narrativa original e narrativa do instagram e anotar conceitos

  • Auto relacionamento
  • Obsessão individual
  • Evolução individual como prioridade
  • Contato físico como algo dispensável
  • Relacionamentos intelectuais e distantes fisicamente
  • Autotransformação como missão de vida
  • Auto-suficiência afetiva
  • “Estar só é melhor que estar com outras pessoas porque eu mesmo me defino e crio”
  • Entropia social
  • Pós-humano (eu me crio e me defino)
  • Auto manipulação de capacidades intelectuais e físicas

2 — Debrief

A partir da narrativa identificar os assuntos que aparecem e quais podem ser trabalhados

  • Auto suficiência afetiva
  • Entropia social e individualidade como meio de evolução
  • Redução da natalidade
  • Retrocesso no relacionamento com o outro
  • Auto aprimoramento extremo
  • Obsessão pelo eu
  • Pós humano individual e solitário
  • “Eu me basto”

3 — Crazy Eight

Em 10 min desenhar 8 ideias sobre o futuro do afeto, baseado na nossa narrativa

  1. Uma pessoa estressada passa por um portal que simula uma experiência para transformá-la em alguém feliz e se sentindo completo consigo mesmo
  2. Um casal que ao longo de uma corda bamba caminha e passa por algumas experiências que os fazem refletir como estariam auto realizados e estáveis se estivessem sozinhos
  3. Uma pessoa do futuro horrorizada assistindo um casal trocando afetos
  4. Alguém muito feliz por estar caminhando em um lugar deserto
  5. Ao encontrar outra pessoa, o personagem sente dificuldade em se relacionar
  6. Uma pessoa saindo do planeta terra abraçando um balão com formato de coração, representando a fuga de outros humanos, a necessidade de estar sozinho, a exploração para além do planeta Terra, e o amor por si próprio
  7. Um grande coração que funcionaria como um pula pula, onde a pessoa se diverte sozinha, enquanto ao redor há várias pessoas tristes
  8. Alguém passando por transformações físicas e emocionais através de alguma experiência de transhumanismo

4 — Três ideias

Escolher 3 ideias com mais potencial e descrever como seria o protótipo de cada uma delas

1ª ideia: Desenvolver um jogo com o objetivo de transformar o personagem até que ele se auto realize

2ª ideia: Jogo que precisa atravessar uma corda bamba com alguém. Ao longo da travessia vão aparecendo dicas de auto realização e opções de transformação

3ª ideia: Apresentar experiências dos extremos do auto afeto. Com um óculos de realidade virtual mostrar como é desesperador estar com junto a outras pessoas e/ou experienciar uma sala espelhada com VR, onde a pessoa pode escolher o que não gosta em si e se transformar

5 — Duas ideias

Escolher 2 dessas ideias e escrever o conceito que está sendo trabalhado, qual ritual seria feito e desenhar como seria o protótipo em 3D

Para a primeira ideia selecionada, definimos:

Conceito:

Ter o poder de se aperfeiçoar constantemente de forma controlada e se transformando naquilo que deseja

Ritual:

  • Olhar-se no espelho e perceber o que incomoda em si mesmo
  • Desenhar o que incomoda no espelho
  • Fazer uma sessão meditativa de 5 minutos guiada, para fazer a pessoa refletir sobre o que a incomoda a nível mental
  • O participante poderá computar as mudanças em um dispositivo e sair com um certificado da mudança

Protótipo 3D:

Um cérebro de borracha

Para a segunda ideia, foi definido:

Conceito:

Digissexualidade. Poder fazer sexo de forma remota. O sexo apenas como prazer, pois não existe o compartilhamento de amor

Ritual:

Em um dispositivo a pessoa escolhe o tipo de pessoa que gostaria de se relacionar sexualmente, coloca suas preferências no ato sexual e entra em uma cabine para viver a experiência

Protótipo 3D:

Uma cabine confortável para o sexo, com luzes e globo espelhado.

6 — Escolha final + Protótipo em papel

Escolher 1 das ideias e prototipar em papel (paper prototype)

A ideia escolhida foi uma mistura das 2 anteriores com algumas mudanças. Construímos uma cabine do auto aperfeiçoamento, onde o participante teria um menu de transformação e poderia escolher o que gostaria de transformar: a parte mental, física ou social. Para cada um dos itens o participante viveria uma experiência diferente na cabine


LAMBE-LAMBE

Forma de expressão de arte urbana com caráter de intervenção e disseminação de informação no séc. XIX. No período pós-segunda Guerra Mundial tivemos um ressurgimento dos posters de protestos, obviamente uma clara reação ao período passado e ao apoio a contracultura, foi nessa época que a arte de rua começou a se aproveitar do caráter imediato e massivo da mídia impressa para criar sua própria categoria: o Lambe-lambe, também conhecido como Wheatpaste poster ou Paste up.

Por este meio de expressão e disseminação, escolhemos algumas frases emergentes da construção do projeto, sua essência, seus objetivos, intenção de reflexão, provocações de pensamento, para criar estas artes e envolver a Cabine — Reflexos do Eu.

Frases:

Eu me basto!

Eu me crio, me defino.

Eu comigo mesmo sou futuro.

Pós-humano individual e solitário.


RITUAL

Ritual é definido como “um conjunto de gestos, palavras e formalidades, geralmente imbuídos de um valor simbólico, cuja performance é, usualmente, prescrita e codificada por uma religião ou pelas tradições da comunidade”. Para viabilizar a experimentação do protótipo construímos e idealizamos uma sequência de interação e performance com as pessoas participantes e a cabine construída, sob o objetivo de promover a reflexão e auto questionamento inseridos no contexto do projeto.

“Reflexos do Eu — Qual a percepção de si mesmo?”

CONCENTRAÇÃO

Entre na cabine, sente-se e coloque o fone de ouvido

AUTO IMERSÃO

O áudio vai levá-lo numa experiência de auto análise.

REFLEXÃO

Este é o seu momento, apenas de você com você mesmo, de vocıe refletindo com você

SENSAÇÃO

Terminando o audio, retire o fone, saia da cabine e observe seu interior.

PERCEPÇÃO

Qual a percepção de si mesmo? Coloque suas anotações no mural de eus (se for sua vontade, claro!)


EXPERIMENTO & RESULTADOS

Percebemos que apesar do material da caixa, o experimento chamou a atenção do público. Quando os participantes se aproximavam, apenas explicamos o ritual, sem comentarmos sobre o futuro do afeto. Queríamos captar o que as pessoas sentiam ao vivenciarem um momento sozinhas, refletindo sobre si mesmo. Será que elas se sentem bem? Ou será que existe um medo de estarem só?

Após ouvir o áudio guia, o participante podia escrever em um post-it qual era a percepção de si mesmo. Todos que fizeram o experimento escreveram. Pegamos as seguintes anotações:

  • Eu, universo
  • Equilíbrio, respiração, paz
  • Quem sou eu?
  • Castelo ra-tim-bum
  • O eu como uma pequena parte de algo maior
  • Calmaria com pensamentos vazios (mente limpa)
  • O tempo passa, mas essência fica. É casa
  • Mais imersivo
  • Refletindo sobre mim mesmo, por este tempo senti distância

Após os participantes escreverem suas percepções, explicamos como chegamos neste conceito do futuro do afeto.


REFLEXÕES — FUTURO DO AFETO

E afinal, depois de um processo tão detalhado, criação, prototipagem, experimentação, teste, reflexão, levantamento de questões sobre uma projeção de futuro do auto-afeto extremo, nos propomos a fazer uma consideração final (um pouco diferente até, quem sabe) sob o futuro do afeto, agora com um repertório mais significativo e um processo de construção de mindset e experimentação aprofundados.

Nos dias de hoje, quando as pessoas ficam sozinhas de fato, que foi o que aconteceu no experimento, elas se apropriam do que elas são, entram em contato com suas próprias histórias, recordações afetivas de momentos mais distantes (infância), desejos ou simplesmente se sentem calmas e tranquilas. É como que um instante de alívio para o mundo que vivemos, uma “pausa” na aceleração da existência contemporânea.

Então, apesar de termos projetado este futuro para daqui 200 anos, percebemos que as pessoas já estão se sentindo muito bem sozinhas. Que a criação de momentos individuais e reflexivos são positivos. Mas e se além de positivos eles fossem uma demanda do ser humano? (reflexão aberta e propositiva)

Não existe o medo do outro e do afeto com o outro. Mas já existe uma satisfação (e talvez até necessidade?) em entrar em contato com o próprio eu, em se perceber, em se auto conectar sem interferências externas e “protegido” do mundo “lá fora”.

Pensamos que no futuro, essa satisfação de estar só (que hoje é benéfica) pode trazer alguns desequilíbrios como medo e dificuldade de socialização. A descoberta da própria identidade (ao extremo), a satisfação de estar só, poderá, dependendo do nível de profundidade e isolamento, em algum instante comprometer a maneira como socializaremos no futuro.

Esta questão se levanta ainda mais proeminente se considerarmos que teremos todo um contexto diferente, onde as pessoas vão trabalhar mais sozinhas, vão poder viver distanciadas uma das outras (inclusive interplanetariamente).

Fica em aberto uma resposta incisiva e objetiva, pois a projeção de um futuro extremo do afeto ou qualquer outro, está no nosso potencial de construção e escolhas. Mas a reflexão e estudo são sem dúvida o trilhar do caminho que pretendemos considerar.

E você? Para onde acha que caminha o Futuro do Afeto?

Andreia Gonçalves e Beatriz Matos — Alunas do curso de pós-graduação em Design Estratégico e Inovação no IED