poema de fim de feriado

sou filha e mãe do gesto
não sei se por influência má
dos signos do zodíaco
se pela afinidade com a terra
mas meu corpo mudo e minúsculo sempre se curva
diante da implosão
-
palavras são inúteis, uma vez ouvi
e desde então todas as palavras que digo
soam como orações
a convertidos
-
irrevogável gesto
(um lance de dados
que jamais abolirá
o acaso)
para assumir o não-dito
(os atos performativos)
é péssimo pro meu ofício
(não é bem um ofício)
-
vejo uma mínima gotícula de água salgada se formando
no canto côncavo do seu olho
é ligeira e fugaz e solitária,
acima de tudo solitária, mas
sinto todos meus órgãos despencando
queda livre rumo ao solo duro de terra árida
barulho seco, sobe poeira
caem perto dos pés
como carcaça
assum preto
sobrevoa
ou é só um
urubu
seguro sua mão amiúde
com intuito de
nos ancorar
-
e a água salgada vai às têmporas
boca seca e os nós
nós
tudo bem, e o aqui
estou aqui
não é o suficiente
gostaria muito de ser
é o suficiente
-
sou aquele verso
do maiakóvski
tão repetido que bate até que fura
tão repetido
será que deixa de ser verdadeiro
acho que não deixa de ser verdadeiro
“às vezes com aquele que amo”
sou toda
coração
mas aquele é outro verso
e se eu pudesse dedicar
todos os versos
não seria
o suficiente
-
palavras são
feriado
no domingo
e secar
gelo
e pedir a carne
ao ponto
e clamar
silêncio
-
gestos
e sussurros
e mãos a procura
de mãos
ou braços ou cintura
ou pernas ou coxas
ou cabelos ou o espaço
atrás dos joelhos
ou das orelhas
o que for
gestos
-
o olhar debruçado
se descortinando
e declarações
e segredos
e o medo
no silêncio
e na escuridão
quase clara
da madrugada
é âncora
é lar
é terra
e me faz pensar que a influência
do zodíaco
não é de todo mau
